Sobre palestras motivacionais e manchetes sensacionalistas

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Texto de Carol Manciola, consultora, palestrante, CEO e co-fundadora da Posiciona Educação e Desenvolvimento. Autora do livro “Os Cês da Vida”.

Ontem, uma das notícias que mais apareceu na minha timeline foi: ‘Prédio é evacuado no ABC após 50 funcionários pularem ao mesmo tempo em palestra motivacional’, vinculada no G1 e em vários outros portais de notícias.

Eu, como a maioria das pessoas que comentou a matéria, achei que 50 pessoas tinham se jogado do prédio por conta de algo que tinha sido ‘trabalhado’ na palestra.

A notícia circulou em muitos dos meus grupos de WhatsApp (afinal, sou da área), virou motivo de chacota e altas críticas tanto em relação à palestra motivacional como ao título da matéria.

Fui dormir com esse monte de informação na cabeça e hoje acordei com essa reflexão que compartilho com vocês.

Sobre Palestras Motivacionais

Me considero uma pessoa de sucesso em diversos aspectos da minha vida e confesso que muitas das minhas grandes decisões foram tomadas depois de assistir alguma palestra motivacional. Sempre gostei de ouvir gente que chegou aonde eu queria chegar: contar seus segredos. Até os mais clichês sempre me despertavam alguma coisa.

Motivação vem de dentro, eu sei. Mas inspiração vem de fora.

Funcionou para mim. Me beneficiei muito das vezes que tive a oportunidade de ouvir pessoas inspiradoras, mas é claro que não funciona para todos.

Em relação ao fato amplamente divulgado ontem, muitos comentários eram ofensivos e diziam que ‘motivação é salário no bolso’, ‘a empresa devia gastar a grana da palestra distribuído para os funcionários’, ‘autoajuda é pura enganação’, mas qualquer pessoa que estude, no mínimo, Maslow sabe que são diversos os fatores motivacionais e que ‘auto-ajuda’ tem lá seus benefícios (eu particularmente desconheço ajuda mais efetiva do que aquela que decidimos oferecer a nós mesmos).

De qualquer forma, minha intenção aqui não é defender ou criticar, mas trazer um outro ponto de vista. Eu acredito que qualquer ação realizada por uma empresa com o intuito de promover reflexões, conscientização, capacitação e crescimento pessoal e profissional para o seu time é válida.

Em relação ao pulo coletivo, desconheço o contexto, mas provavelmente essa deve ter sido uma das técnicas utilizadas pelo palestrante para elevar a energia do grupo, mudar o padrão de fisiologia ou criar algum gatilho emocional para, a partir disso, aumentar o nível de retenção da mensagem. Tem fundo científico.

Sobre Manchetes Sensacionalistas

A matéria em si não me pareceu sensacionalista. O título sim, mas cumpriu seu propósito: o de fazer as pessoas lerem a matéria. Claro que muita gente não leu e espalhou a notícia de forma ainda mais sensacionalista, dedicando seu tempo a escrever sua opinião antes de mesmo de conhecer conteúdo da matéria. Parece um ciclo vicioso.

Gramaticalmente o título está perfeito. Talvez nosso lado sensacionalista é que tenha feito ele ficar ainda melhor.

A questão é: nos dias de hoje a tragédia ganha mais atenção e boa parte disso se deve ao nosso comportamento.

Se o jornal faz isso e ganha audiência, o que ele vai fazer? Se esforçar para criar headlines poderosas, que sejam lidas, compartilhadas e até criticadas. A qualidade dos comentários é menos importante: o foco está no número de visualizações.

A gente criou esse monstro. Bora agora aprender a conviver com ele e selecionar melhor nossas fontes, afinal, em terra onde a informação é abundante, curadoria faz toda diferença.

Sobre a crítica pela crítica

Eu sempre me questiono sobre os tantos paradoxos que vivemos nos dias de hoje.

As pessoas aplaudem atos de empatia e compaixão e continuam julgando muito antes de, ao menos, tentar compreender.

As pessoas criticam a palestra, a matéria, as empresas, criticam tudo num nível de superficialidade surreal. Será que se dão ao trabalho de olhar um pouco mais a fundo antes de emitir sua opinião?

Nesse caso, por exemplo: o que os participantes da palestra acharam da atividade? O que empresa tem colhido de resultados positivos ao investir nesse tipo de evento? O quanto esse palestrante tem contribuído com as pessoas?

Acho legal emitir opinião sobre o que nos interessa (eu mesma adoro e estou fazendo isso nesse exato momento), mas, por vezes, a sua opinião fala mais sobre você do que sobre o outro. Por isso, vale avaliar se ao invés de apenas criticar, convidar as pessoas à reflexão não torna sua comunicação mais efetiva.

Em tempos onde tudo parece raso e desconexo, análises rasas e deturpadas tornam o julgamento ainda mais preconceituoso.

Do lado de cá, de algumas coisas eu tenho certeza: palestras motivacionais me tornaram alguém melhor, manchetes sensacionalistas cumprem seu papel e a crítica pela crítica não leva ninguém a lugar a nenhum.

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