Com mais de 6,5 mil mestres e doutores, Uece é celeiro de inovação do Ceará para além do meio acadêmico

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Há centenas de anos a humanidade trabalha em busca de novas descobertas que modifiquem para melhor sua realidade, sejam elas na área da saúde, comunicação, educação, segurança, física, química, entre outras. Grandes pesquisadores e cientistas ganharam fama mundial por seus feitos, como é o caso de Isaac Newton com as suas leis, Charles Darwin e a Seleção Natural, e Nicolau Copérnico com o movimento da Terra. Porém, as civilizações evoluíram e a gama de pesquisadores e estudiosos também cresceu. Hoje, as universidades têm papel especial nesse campo de achados e na produção de pesquisas nas mais variadas áreas.

Aqui, a Universidade Estadual do Ceará (Uece) vem se destacando regionalmente por seus resultados não só no Ensino Superior, mas na pós-graduação. Além da graduação, a instituição oferece há 40 anos cursos e programas de aperfeiçoamento, especialização, mestrados profissional e acadêmico e doutorado. Nesse período, a Uece já lançou na sociedade 5.790 mestres e 742 doutores, que contribuíram de momento com seus projetos defendidos na dissertação e hoje qualificam o mercado de trabalho. Em abril último, 694 mestres e doutores foram diplomados pela instituição.

Anualmente a Universidade tem ofertado cerca de 600 vagas para mestrado e doutorado. Os 42 cursos Lato Sensu disponíveis no momento estão com 1.438 alunos matriculados. Nos 44 Stricto Sensu a frequência atual é de 2.040 estudantes, totalizando 3.478 discentes. Nukácia Araújo, pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa, enxerga nessas dissertações soluções para novas ações governamentais e para o surgimento de elementos inovadores com potencial para serem produzidos na iniciativa privada. “Os projetos podem impactar para a resolução de problemas passando por um produto ou uma política pública. O subsídio que a gente dá para poder promover políticas de bem estar na sociedade é muito grande. As vezes a gente não tem necessariamente o produto, mas temos todo o estudo que pode se basear para obter soluções para a resolução de problemas na sociedade”, ponderou Nukácia.

Transplante e água de coco

Uma dessas pesquisas que pode resultar em ganhos para a sociedade é a do médico urologista e mestre em Biotecnologia pela Uece, Rômulo Farias, que trabalha como cirurgião transplantador desde 2011 no Hospital Geral de Fortaleza, da rede pública de saúde do Ceará. Durante seu mestrado, ele testou uma nova solução, à base de água de coco em pó, para a preservação de órgãos como fundamento essencial para transplantes. A técnica foi desenvolvida com rins de coelho e analisou a viabilidade após preservação estática na solução.

O experimento teve uma conclusão positiva para a preservação em até 18 horas dos rins de coelho na solução, que dilui a água de coco em pó em água deionizada. No método atual, o órgão pode resistir a 24 horas de preservação. Rômulo Farias explica que os custos em transplantes podem cair consideravelmente com essa técnica, visto que “são seis litros em média por captação de órgão e cada litro custa R$ 900 em média. Outra vantagem da solução à base de água de coco ser em pó é que não precisa ser armazenada em local refrigerado, diminuindo ainda mais o custo”, disse o médico.

“Tem um grupo na Uece que trabalha com soluções à base de água de coco em pó e eles fazem experimentos com diversas aplicações, então, como já trabalho com transplante, percebo o custo das soluções de perfusões (procedimento adotado para manter os órgãos transplantados vivos fora do corpo humano), que são todas importadas. O Ceará é um dos estados que mais transplanta no Brasil percentualmente à população. A gente tem captação de múltiplos órgãos nos diversos hospitais do Estado, então a gente usa bastante solução de preservação e a questão do custo foi fundamental”, destacou Rômulo Farias ao explicar como idealizou sua pesquisa.

A partir dos resultados positivos, estudos mais refinados em animais de maior porte e maior semelhança ao corpo humano já estão sendo elaborados, informou Rômulo. “Estamos organizando para fazer com porcos. Vão ser retirados os rins dos animais e vamos fazer a perfusão nas duas soluções, a padrão e a com água de coco em pó, então vão ser realizadas análises mais pormenorizadas” confidenciou o médico. “A ideia é que essa seja uma solução de preservação de múltiplos órgãos”, disse.

Produção de alimento e tratamento de água

Outro bom exemplo de pesquisa que pode modificar o ambiente local de um cidadão ou até mesmo de uma comunidade é a dissertação do biólogo e mestre em Ciências Naturais, Rafael Nóbrega, que desenvolveu um método de produção de alimento animal e vegetal que ainda serve como despoluidor de água. “Esse tipo de tecnologia é muito relevante para nossa região semiárida, onde temos um deficit hídrico e que vem para trazer facilidade de produção de alimento”, ressaltou Rafael.

O biólogo detalhou como funciona o sistema completo. “Temos um tanque com peixes onde os alimentamos com ração, seja ela natural ou industrializada, então acoplo a esse sistema um de hidroponia, que é um sistema de recirculação de água, e que passa pelas plantas, então elas por meio das raízes absolvem os nutrientes da água, tornando-a mais limpa. Ou seja: os peixes sujam a água com suas fezes e os restos de ração e as plantas limpam a água. Com isso vou ter uma água que vai estar sempre sendo tratada e no final desse processo vou ter animais para consumo e vegetais de qualidade, tudo produzido em uma área pequena”explicou Rafael. Em seu experimento, ele produziu tomate, cúrcuma e quiabo utilizando três fontes de água (poço, riacho e abastecimento público). Os peixes postos nos tanques foram tilápias.

Para o biólogo essa é uma experiência que pode ser amplificada inclusive em áreas urbanas. “A gente vive uma onda de empreendedorismo muito grande e esse tipo de agricultura pode ser utilizada dentro da cidade, eliminando essa demanda por locomoção do produto, até mesmo pela questão de não ser possível nem necessário utilizar agrotóxico, porque vai contaminar o peixe e a água. Só isso já é uma grande benfeitoria para a sociedade e o meio ambiente”, reforçou.

Incentivo à produção

A gama de conteúdo gerado anualmente pelos mestrandos e doutorandos da Uece não estão tendo como destino final as prateleiras de uma biblioteca. A Universidade com o intuito de fomentar que essas pesquisas saiam do papel e façam parte da vida da população criou alguns mecanismos para isso, segundo Nukácia Araújo.

“A gente tem o Núcleo de Inovação Tecnológica, que trabalha tanto na perspectiva de adquirir patentes e registrar produtos, quanto o IncubaUece, que é a nossa incubadora de projetos, porque muitas vezes nascem pequenas empresas desses pequenos e eles ficam incubados aqui dentro para o produto poder ir para o mercado. Temos também o parque tecnológico que fomenta essa conversa da acadêmia com o setor produtivo e a sociedade”, enfatizou Nukácia.

Para a pró-reitora, a construção de uma sociedade desenvolvida passa pela produção dessas pesquisas acadêmicas. “A partir da pesquisa é que a gente promove o desenvolvimento. Pesquisa é imprescindível e esses profissionais que se formam na universidade são aqueles que trazem contribuições para o desenvolvimento do estado, da região, do Brasil. Investir em pesquisa, ciência, tecnologia, humanidades deveria ser algo jamais questionado. A contribuição que a pesquisa e a pós-graduação trazem para o Brasil é indiscutível. Quem diz que não tem contribuição é quem não conhece. Dizer que a universidades públicas não produzem pesquisas é um equívoco muito grande”, enfatizou.

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