A Coluna do Roberto Maciel (terça, 24.11): Santos Cruz, um bolsonarista expelido pelo bolsonarismo, e o “comunismo de direita”

Não basta ser coadjuvante opaco: tem de ser bizarro
Não pode nem deve ser inscrito no panteão da inteligência nacional o general Carlos Alberto dos Santos Cruz. De janeiro a junho de 2019, ele foi o chefe da Secretaria de Governo, subordinado a Jair Bolsonaro. Isso, por si, já não indica virtudes intelectuais ou morais – não vem ao caso nem citar os esquálidos resultados da gestão em pesquisas de avaliação. Não bastando isso, o graduado militar teve as contas batidas pelo controlador maior dos cargos no Planalto – o vereador Carlos Bolsonaro (RJ), o vulgo “02”, filho do presidente da República -, com quem se atritou. Sem glórias nem feitos vultosos, Santos Cruz foi sumária e humilhantemente mandado embora. Ponto para “Carluxo” na insaciável fome de poder que o faz babar. O fato de ser expelido como personagem coadjuvante, que se movimentava nas sombras do picadeiro, não bastou para o general. Para ele, forjar situações bizarras também poderia ser de boa monta.

Gestão Bolsonaro "é um show de besteiras", diz general Santos Cruz

Rancores de pijamas
Antes de afundar de vez na areia movediça do esquecimento, trajando constrangedores e amarrotados pijamas, Santos Cruz agora se debate esquizofrenicamente – reclamando horrores do governo que ajudou a se abancar. É dele a seguinte esperneada numa rede social: “O Brasil não é um país de maricas. É tolerante demais com a desigualdade social, corrupção, privilégios. Votou contra os extremismos e corrupção. Precisa de seriedade e não de show, espetáculo, embuste, fanfarronice e desrespeito”. É uma declaração covarde. Primeiro, porque não diz a quem a queixa se dirige – a Bolsonaro, que disse que o Brasil seria um “país de maricas” que morreria de medo da pandemia do coronavírus. Depois, porque isola todo o modo vergonhoso que se urdiu para levar o grupo atual ao poder.

A receita da direita é o que Santos Cruz tenta impor à esquerda
Já à revista Veja, uma publicação com assumidamente direitista, o general saiu-se com essa: “Todo regime comunista totalitário divide para facilitar a manipulação. Depois, você ataca pessoas, não ideias. É um assassinato de reputações: todas as pessoas de que você não gosta não prestam. Temos ainda o culto à personalidade: é o mito, o messias, o cara designado por Deus. Isso tudo é uma técnica que quem consagrou foi o sistema totalitário, foi o comunismo. É o contrário de democracia”. Confuso e rancoroso, como o governo que construiu e que depois o abandonou, Santos Cruz disse que a gestão de Bolsonaro se tornou um “PT verde-amarelo” e implantou no Brasil o “comunismo de direita”. A incompetência do general se revela também na incapacidade de compreender a história e de aceitá-la como de fato é.

O caminho é esse
Santos Cruz despreza, na sólida ignorância que lhe é patente, o fato de que a ditadura na qual se formou militar, assim como Bolsonaro, entre 1964 e 1985, foi uma das mais cruéis, fechadas e retrógradas que se teve no mundo no século XX, e que “comunismo de direita” é uma ideia tão tosca quanto à de que o nazismo foi uma ideologia de esquerda, como pregam o presidente da República e alguns apaniguados. Anote, então: a temporada bolsonarista, essa cavalgada insana que pisoteia o Brasil, vai morrer envenenada pelas próprias burrice e más-intenções.

A fala
A coletânea de parvoices dos bolsonaristas é assombrosa. Essa leva a grife do deputado estadual Francisco Cavalcante (PSL), um delegado de polícia civil que, à falta do que fazer na aposentadoria, resolveu virar “político”: “O Governo Bolsonaro tem salvado vidas, preocupando-se, sim, com a pandemia e dando emprego e renda para os brasileiros. O presidente Bolsonaro é um homem íntegro e caridoso, que está partindo recursos com a população. Se não fosse pelo auxílio emergencial, essa pandemia seria a desgraça do Brasil”.

Os fatos

Deputado Delegado Cavalcante


Cavalcante não sabe ou faz de conta que ignora: estamos chegando a 170 mil mortos pela doença, o presidente “íntegro e caridoso” se insurge contra vacinas e receita medicamentos sem eficácia comprovada, xinga de “maricas” os pacientes da covid-19, ameaça governadores e prefeitos, ataca a Organização Mundial de Saúde, politiza a crise e retém verbas para a atenção aos doentes.

Em vídeo
O canal Coluna da Hora, que resulta de parceria entre mim, a jornalista Eveline Frota e o músico e videomaker André Reis, veicula entrevistas sobre temas diversos (https://www.youtube.com/colunadahora). E sempre às terças e quintas-feiras eu e Eveline fazemos lives no Instagram, também com a marca “Coluna da Hora”. Começamos às 17h e os encontros com internautas duram uma hora. Pode-se acessar e participar da Coluna da Hora no Instagram pelos perfis @evefrota ou @robertoamaciel. Esta semana, estamos com um bom papo com a jornalista Juliana Lobo, direto de Londres.

No peito

Facebook


Enquanto o governo de Jair Bolsonaro tenta contra a imagem histórica do líder preto Zumbi de Palmares, a Câmara Municipal de Fortaleza a enaltece. E homenageou o presidente Nacional do Movimento Negro do PDT, Ivaldo Paixão (acima), com a Medalha do Mérito Humanitário Zumbi dos Palmares.

Vesguice
A propósito, na cabeça dos presidente da República e do vice, Hamilton Mourão, não existe racismo no Brasil. Nem o fato de um homem preto ter sido assinassinado por seguranças do supermercado Carrefour em Porto Alegre (RS), na véspera do Dia da Consciência Negra, fez com que Bolsonaro e o general Mourão arredassem pé dessa tese desconectada da realidade.

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