A Coluna do Roberto Maciel (quinta, 4.2): Parabéns, Flordelis!

Só com reza forte
A deputada federal Flordelis de Souza (PSD-RJ), bolsonarista de fé, completa 60 anos de idade amanhã. Vai ter até comemoração, marcada para sábado que vem (veja abaixo), na igreja que comanda. Investigada sob a suspeita de ter mandado matarem o marido dela, o pastor Anderson do Carmo, a parlamentar é a cara do “Centrão” – uma figura do quinto escalão político que costuma se eleger com pregação neopentecostal salpicada de preconceitos, ignorância e troca de favores. Nos últimos dias, Flordelis foi protagonista de uma pegadinha pregada pelo sistema de informática da Câmara federal: ela apareceu, mesmo podendo estar envolvida no crime que ceifou a vida do mentor intelectual, político e financeiro das carreiras dela, como “titular” da Secretaria da Mulher daquela casa legislativa. Essa referência é, na verdade, destacada no site da Câmara para todas as integrantes da bancada feminina. No entanto, muita gente achou que ela teria sido nomeada para cuidar do serviço. A propósito, a festa para Flordelis, se de fato se realizar, servirá como símbolo do escárnio com que o bolsonarismo trata a pandemia, as 227 mil mortes de brasileiros pela covid-19 e a lentidão da polícia e da Justiça.

Critério
Política e administração têm como regra de ouro o binômio confiança e afinidade. Sem esses critérios, até a competência, a ética e a honestidade ficam sob questionamento. Nem sempre, então, os mais competentes, éticos e honestos ocupam posições estratégicas, restando essas para os mais confiáveis e próximos dos líderes. Veja abaixo quem é a deputada Bia Kicis (PSL-DF), escolhida por Bolsonaro e indicada pelo adestrado Arthur Lira (PP-AL) para presidir a importante Comissão de Constituição e Justiça.

Semelhança
A deputada é investigada no inquérito das fake news, iniciado há dois anos para investigar ataques contra o STF e seus ministros com notícias falsas, calúnias e ameaças. Bia Kicis também se notabilizou pela postura negacionista em relação à pandemia. Ela já gravou vídeo ensinando um “truque” para não usar máscaras em locais públicos. Já propalou o tétrico e criminoso “e daí?” que Bolsonaro despejou sobre mortes de brasileiros pela covid-19. E chamou de “merda” o então ministro do STF Celso de Mello. Em dezembro passado, parabenizou em rede social quem fez protesto contra a quarentena no Amazonas – pouco tempo depois, estourou no Estado a mais grave crise de saúde registrada na pandemia, com pacientes morrendo por falta de oxigênio. Essa é Bia Kicis.

Explicado está
Note, agora, que essa é parte da folha corrida de quem inspira confiança e afinidade aos presidentes da República e da Câmara.

O tempo passa, mas Jair Bolsonaro não toma jeito só piora

Pedimos licença ao leitor e à leitora para reproduzir aqui texto do jornalista Bernardo Mello Franco (foto abaixo), no jornal Folha de S. Paulo, em março do ano passado, mas é atualíssimo – trata de política e de insensibilidade e oportunismo na gravíssima pandemia em que o Brasil e o mundo se veem atolados:

Lançamento do livro 'Mil Dias de Tormenta', de Bernardo Mello Franco, é  adiado - 21/08/2018 - Ilustrada - Folha

É uma questão de tempo. O coronavírus mal chegou ao Brasil e já provocou um tombo histórico no mercado financeiro. Em poucas semanas, deve causar estragos ainda maiores na saúde pública.

A pandemia pôs o planeta em alerta, mas não parece preocupar Jair Bolsonaro. Na terça-feira, ele disse que o assunto não passa de “uma pequena crise”. “No meu entender, muito mais fantasia. A questão do coronavírus não é isso tudo que a grande mídia propala”, opinou.

Mais do texto de Bernardo:

As declarações mostram um presidente desconectado do mundo real. Enquanto outros líderes anunciam medidas contra a doença, Bolsonaro tenta negar sua gravidade. Nas horas vagas, brinca de colorir. Foi o que ele fez ao se exibir com um pincel diante de uma tela de Romero Britto, pintor preferido dos brasileiros em Miami.

“É lamentável que o chefe maior da nação adote este comportamento. As falas dele têm impacto, atingem milhões de pessoas”, critica o epidemiologista Roberto Medronho, professor da UFRJ.

Dias de Mandetta:

Na época da publicação do artigo o ministro da Saúde era Luiz Henrique Mandetta, que acabou sendo chutado da equipe por Bolsonaro. Prossegue Bernardo Mello Franco:

Pico do coronavírus no Brasil será entre maio e junho, diz Mandetta | Exame

Num governo avesso ao conhecimento e à ciência, o ministro da Saúde tem se destacado pela atuação sóbria. Avesso a teorias conspiratórias, Luiz Henrique Mandetta (acima) emerge como uma figura equilibrada na crise. Não é pouco. Seu colega Abraham Weintraub, titular da Educação, já usou uma suspeita de coronavírus para incitar o ódio contra uma pesquisadora.

O professor Medronho elogia a conduta de Mandetta, mas lembra que os maiores desafios ainda estão por vir. Em meados de abril, o número de registros da doença tende a disparar. Isso deverá sobrecarregar a rede de atenção básica e os hospitais. “A pergunta não é mais se a epidemia vai chegar ao Brasil, e sim quando ela vai chegar. As autoridades precisam apresentar logo um plano detalhado do que pretendem fazer”, cobra.

Ontem a OMS informou que já estamos diante de uma pandemia global. Questionado sobre a notícia, Bolsonaro voltou ase escudar na ignorância. “Eu não sou médico, não sou infectologista. O que eu ouvi até o momento é que outras gripes mataram mais do que esta”, disse. Se for para repetir coisas assim, é melhor o capitão se ocupar com livros de colorir.

Enquanto o mundo se mobiliza para tentar conter o coronavírus, Bolsonaro diz que a doença “não é isso tudo”. Suas falas mostram ignorância e falta de conexão com a realidade.

Pau que nasce torto morre torto

Jair Bolsonaro permanece o mesmo, 11 meses depois do início da crise e tendo se acumulado diante dele um quantitativo assustador de mais 229 mil mortos pela covid-19. Coube a ele a pavorosa e violenta ação em favor do avanço da pandemia. Coube a ele tambén despejar R$ 3 bilhões em verbas públicas no balcão de negócios da Câmara para eleger o domesticado Arthur Lira para o comando da Casa.

O “autêntico”
Antes mesmo do arrazoado de Bernardo Mello Franco, o jornalista Eduardo Salgado apontava na revista Época:

Jair Messias Bolsonaro não pode ser acusado — até agora — de estelionato eleitoral. Antes e depois de eleito presidente, ele mostrou ter muito pouco entendimento sobre os principais temas econômicos, postou mensagens desrespeitosas nas redes sociais e tentou desacreditar a imprensa. Quem hoje se diz contrariado por Bolsonaro falar pouco e sem propriedade da proposta de reforma da Previdência, quem acha que foi um absurdo um presidente divulgar um vídeo pornográfico e escatológico, como Bolsonaro fez na terça-feira de Carnaval, dia 5, e quem ficou incomodado pelo ataque, usando informações falsas, contra uma repórter do jornal O Estado de S. Paulo no dia 10, todas essas pessoas podem gritar, chorar e espernear, mas não acusem o presidente de ter duas caras. À exceção de um pequeno recuo aqui e outro lá, Bolsonaro continua o mesmo de sempre.

O sonho e o pesadelo (Ou “Bolsonaro é íntegro e caridoso”)
Não é só o presidente Jair Bolsonaro que vive num mundo de ilusões. Engana-se quem acha que bolsominions, dos mais graduados aos mais modestos, têm pelo menos um pé na realidade. Veja essa frase do deputado-policial Francisco Cavalcante: “O Governo Bolsonaro tem salvado vidas, preocupando-se sim com a pandemia e dando emprego e renda para os brasileiros. O presidente Bolsonaro é um homem íntegro e caridoso, que está partindo recursos com a população”.

Pedúnculo
Tramita na Assembleia Legislativa projeto que cria a “Rota do Caju” no Ceará. Seria uma espécie de trilha turística, cultural e econômica integrando os municípios de Beberibe, Cascavel, Chorozinho, Pacajus, Horizonte, Pacatuba, Caucaia, São Gonçalo do Amarante, Paraipaba e Trairi. O autor é o deputado Leonardo Araújo (MDB).

O brasileiríssimo caju!

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