Ações afirmativas são saída para mulheres recuperarem espaço no mercado de trabalho

Em um mercado de trabalho que já era desigual para homens e mulheres, os impactos da pandemia tornaram ainda maior a discrepância de oportunidades entre gêneros. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, 8,5 milhões de mulheres ficaram desempregadas até o terceiro trimestre de 2020, desde o mesmo período de 2019. O número representa uma queda de 14% na participação feminina na força de trabalho.

“Todas as pessoas foram impactadas pela pandemia, mas podemos afirmar que as mulheres foram mais impactadas negativamente, por perderem mais espaço e também oportunidades de crescimento”, afirma Lina Nakata, presidente da Professional Women Network São Paulo e professora do curso de MBA em Recursos Humanos da FIA Business School.

Para ela, a exclusão feminina da força de trabalho é maior do que a masculina graças a alguns preconceitos que se perpetuam. “Ainda há a ideia de que mulheres são menos produtivas e apresentam menos competências, mesmo que estatisticamente elas se dediquem mais à educação formal. E isso está relacionado à possibilidade de engravidarem e de terem pessoas dependentes para cuidar, como crianças, idosos e familiares doentes. Esses papéis de cuidado ainda são vistos como responsabilidades exclusivas da mulher”, explica.

Lina lembra que há grupos mais afetados. Mulheres negras, mães, com mais de 50 anos, com deficiência e com baixa escolaridade perderam ainda mais espaço no mercado de trabalho, além de enfrentarem maior dificuldade de recolocação. “O cenário indica que as empresas estão, aos poucos, tornando-se menos diversas, ao contratarem e promoverem mais dos grupos majoritários”, pontua a cientista de dados.

Como reverter esse cenário?

De acordo com um levantamento feito pela McKinsey & Company e divulgado em setembro de 2020, a pandemia provocou um retrocesso de 5 anos na redução das desigualdades de gênero no mercado de trabalho. Para recuperar o espaço perdido, vai ser preciso conscientização e mudanças nas empresas.

“É importante que, em breve, tenhamos processos seletivos só para mulheres, para favorecer as lideranças femininas. Porque, se não as colocarmos na base, elas não vão conseguir crescer”, afirma a especialista em Recrutamento e Seleção Areta Barros, head da Hod (Hub on Demand).

Areta conta que tem percebido um esforço das empresas em manter mulheres nos cargos de liderança. “Tenho visto profissionais que ocupam cargos de liderança receberem propostas, em processos de seleção que estamos fazendo, com até 40% a mais de remuneração, e em seguida receberem contraproposta das empresas onde já trabalham. Há um esforço de retenção dessas lideranças femininas”, afirma.

No entanto, esse empenho não é suficiente para que as mulheres avancem de maneira efetiva na conquista de espaço no mercado de trabalho. Especialmente porque as mais impactadas pela exclusão são as que ocupam cargos de base. “Para reduzir as desigualdades, é preciso haver compromisso das empresas e a elaboração de ações afirmativas. Não basta só o RH contratar mais mulheres, o gestor contratante também precisa incluir essas profissionais nas políticas da empresa e fomentar o crescimento delas”, diz Areta.

Entre as ações necessárias para a retomada do espaço feminino, a head da Hod sugere processos de recrutamento e seleção planejados com foco na inclusão de mulheres. “Quando um recrutador quer trazer diversidade para o processo, é essencial que o foco seja a diversidade em todo o momento. É preciso definir uma meta, como 70% de mulheres na contratação, e a partir disso trabalhar para atrair esses talentos femininos”, explica, pontuando que as vagas também precisam trazer benefícios valiosos para as mulheres. Entre eles, jornada flexível, com a possibilidade de home office, apoio à educação dos filhos e um bom plano de saúde.

“Também é necessário que o mercado desconstrua preconceitos em relação à maternidade”, afirma, “porque, depois que engravidam, as mulheres enfrentam muito mais dificuldade para ascender profissionalmente”. A diretora explica que as barreiras não são impostas pelas mulheres, mas pelas estruturas social e do mercado de trabalho. “Tudo é construído para que as mulheres não cheguem ao topo, da sobrecarga doméstica à falta de flexibilidade de muitas empresas”.

Deixe uma resposta