Recomeço? Primeiro, o porquê

Artigo de Ju Ferreira, palestrante e mentora, criadora da metodologia Alquimia Pessoal, executiva de uma empresa de TI há 17 anos:

Existe um texto – às vezes atribuído a Carlos Drummond de Andrade, embora não seja de sua autoria – que corre na internet há bastante tempo. Diz assim:

O Tempo
“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente. (…)”

A verdade é que é isso mesmo que nos acontece (a todos nós) na transição de cada ano. Quando entramos em dezembro, já exaustos e frustrados por tudo aquilo que não realizamos até ali, passamos a ansiar o novo ano, as novas metas, a página em branco para podermos escrever tudo aquilo que desejamos.

A renovação da esperança é essencial para o bom funcionamento da nossa vida em sociedade. Acontece que muitas vezes nesse novo ciclo nos propomos a muitas coisas, fazemos mil e uma resoluções e promessas – seja na área que for, da saúde à carreira, nos prometemos que esse ano faremos diferente para conseguir os resultados que desejamos – só para nos decepcionarmos pouco tempo depois, pela dificuldade da tarefa à nossa frente…

E, claro, os gurus do empreendedorismo e do desenvolvimento pessoal dirão que o problema é nossa falta de foco ou de produtividade e nos indicarão uma porção de livros, cursos e programas para que melhoremos nossa performance. Mas eu tenho outra sugestão: que cada um de nós comece pelo nosso porquê.

O escritor e palestrante Simon Sinek, autor do livro “Comece pelo porquê”, explica qual o benefício de se fazer esse processo: nós nos conectamos com o motivo para se fazer algo e não com a atividade em si.

Ele criou uma ferramenta, que chamou de Golden Circle (ou Círculo Dourado, em português), que consiste em três círculos concêntricos, o mais interno sendo aquele que representa o “porquê”; o do meio, o “como”; e o mais externo, o “o quê”. Toda a explicação do Simon é baseada em empresas e no seu sucesso, mas queria pedir a sua licença para fazer um paralelo com a vida e o planejamento de ações.

Todos nós sabemos “o que” temos que fazer – perder peso, aprender inglês, reduzir a ansiedade – e alguns de nós inclusive sabem “como” fazer isso – fazer exercício três vezes por semana, começar um curso intensivo de conversação, começar a meditar diariamente. O que quase ninguém pára para pensar e realmente definir é “porque” fazer isso que queremos fazer. Por que é relevante para a sua vida (e o seu ano) perder peso, aprender inglês ou reduzir a sua ansiedade? E enquanto não sabemos a razão da existência de algo, aquilo não se conecta com a nossa alma, e terminamos por abandonar a tarefa.

Ah, quer dizer então que é só escrever um motivo para fazer cada coisa que queremos fazer, que então o sucesso é garantido? Não. Não se trata de apenas racionalizar uma explicação, mas sim de entender se (e como) aquela ação tem a ver com o que você acredita.

Não entendeu? Vou usar um exemplo para explicar melhor: vamos supor que desde pequeno você tenha ouvido que falar inglês é importante para ter sucesso. Por conta disso, todo ano você coloca a linha “aprender inglês pra valer” na sua lista de resoluções. Acontece que você nunca usou o inglês no trabalho e não tem o sonho de morar fora. No fundo, você não acredita genuinamente que você seria mais bem-sucedido se falasse inglês. Você, na verdade, tem a convicção de que você avançaria na carreira se você conhecesse mais pessoas influentes e assim tivesse mais oportunidades de mostrar suas habilidades profissionais.

Se você tivesse a crença do exemplo acima, você acabaria tendo grandes dificuldades para cumprir sua promessa e se dedicar para aprender a língua. Essa tarefa simplesmente acabaria por perder prioridade, já que ela não teria real conexão com aquilo que você crê.

Agora, suponhamos que você acreditasse que quem fala inglês é mais inteligente e tem horizontes mais amplos, mesmo que não use o idioma no trabalho. Ou que você julgasse que quem consegue viajar e se comunicar na língua local é mais feliz. Não pareceria mais fácil aprender inglês com essa crença? Com certeza sim.

Sendo assim, comece hoje. O recomeço do ano já aconteceu, mas pode ser que o seu ainda não. Ainda é tempo de refletirmos a respeito dos seus porquês, das coisas em que você acredita com paixão; e a partir daí definir suas metas e partir para a ação.

Afinal, como diria Simon Sinek, o sucesso começa com a clareza da motivação – seu porquê – continua com a disciplina da execução – seu como – até chegar à consistência do resultado – seu o quê.

Deixe uma resposta