Princípios ESG são caminho sem volta para a atuação da indústria mineral

Entre os desafios do setor mineral brasileiro, a implantação efetiva dos Princípios ESG (Ambiental, Social e de Governança) continua na mira da indústria. O conceito não é novo, já que substitui termos amplamente usados há mais de uma década, como Sustentabilidade e Responsabilidade Social, mas é um caminho sem volta, segundo os especialistas que participaram do painel “Sustentabilidade Ambiental, Social e Governança (ESG) na Exploração Mineral” do Simexmin 2021.

Geóloga e presidente da WIM Brasil/XR LAB, Patrícia Procópio, do movimento Women in Mining Brasil (WIM Brasil), um movimento mundial do setor que tem como objetivo principal promover um ambiente mais inclusivo nas empresas de mineração para a questão de gênero. Atualmente, são 24 signatárias no país e um dos primeiros resultados dessa iniciativa é o Plano de Ação Avanço das Mulheres na Indústria da Mineração Brasileira.

O próximo desafio é um diagnóstico do setor de exploração mineral, para estudar possibilidades de incluir mais mulheres no segmento. “Nosso propósito é ressignificar a exploração em relação à inclusão de gênero, criar oportunidades e desenvolver novas novas lideranças femininas na área, subsidiar, atrair e reter mais mulheres para a exploração mineral”, frisa.

Jornalista, relações públicas e presidente da Interatio, Rolf Georg Fuchs, sugeriu a mudança do termo “exploração mineral” por “pesquisa mineral” porque a palavra exploração tem um significado negativo na língua portuguesa. Ele também disse não há caminho de volta para os Princípios ESG, que é fundamental para a melhoria da imagem e da reputação do setor, principalmente na relação com gestores municipais e população.

“As comunidades estavam lá antes da chegada da mineração e vão estar depois que a empresa encerrar suas atividades. Então, sem aceitação social, o projeto não acontece. Ter uma comunicação com linguagem adequada, clareza, tempo para alcançar familiaridade e confiança, atenção às minorias e grupos sociais específicos, postura ética junto ao poder municipal, entender as divergências e lutar pelas convergências são fundamentais”, aponta.

A adesão e efetiva aplicação aos Princípios ESG também tem peso econômico para os negócios. Segundo a geóloga e pesquisadora do Serviço Geológico do Brasil na Divisão de Geologia Econômica, Lilia Costa Queiroz, o lançamento do índice de equidade de gênero da Bloomberg, Gender Equality Index e a arrecadação de mais de US$ 21 bilhões em fundos ESG apenas no primeiro trimestre deste ano comprovam que essa mudança também faz bem para o faturamento.

“Hoje o setor tem um desafio maior que encontrar o mineral. É preciso fazer isso de forma economicamente viável, sustentável e harmônica com o ESG. Assim, a presença de mulheres nas minerações – o que hoje está em um percentual de 13%, sendo que no mercado de trabalho o índice é de 44%, é ter um novo olhar sobre o negócio, em todas as áreas”, frisa.

Crimes e mineração

Mineração é desenvolvimento e riqueza, mas do ponto de vista da segurança pública, também merece um tratamento especial. De acordo com o geólogo e perito criminal da Polícia Federal (PF), Fábio Salvador, falta aos Princípios ESG a palavra J, de Justiça porque o crime que permeia todos os ambientes também está presente na exploração do ouro, na América Latina. Entre eles, lavagem de dinheiro, financiamento de terrorismo, riscos e vulnerabilidades variadas.

Assim, a PF desenvolveu o Programa Ouro Alvo, para investigar de forma científica e técnica qual é o tipo de ouro que sustenta a criminalidade no país. O órgão que tem o seu laboratório de geologia próprio também estuda a criação de um selo GreenGold para certificar empresas brasileiras que incluem boas práticas na governança dessa linha de produção.

“Hoje temos apreensões de ouro semanais de ouro irregular comercializado. A evolução do preço do ouro a partir de 2020, associado ao fenômeno da pandemia gerou um aumento muito grande nos preços nacional e internacional do produto, o que atraiu mineradores irregulares criminosos que se passam por mineradores artesanais ou garimpeiros. Se se confirmarem as previsões de que o valor duplique, teremos seríssimos problemas de crime e segurança pública e isso precisa ser controlado”, destaca.

Para esse projeto, a PF firmou um acordo de cooperação técnica inédito com a Agência Nacional de Mineração (ANM), para compartilhamento de informações e de atribuições.  “A Agência tem sido falha do ponto de vista da segurança pública e justiça há décadas, devido ao sucateamento institucional e à falta de incentivo estatal para termos uma Agência forte que possa cumprir com seu papel de fiscalizar a atividade. O acordo que firmamos é um marco porque podemos trocar bancos de dados e atuar no combate às ilicitudes da cadeia produtiva do ouro e propiciar que a ANM possa superar a dificuldade de ir a campo para fiscalizar”, conclui.

Os mediadores foram a diretora de Sustentabilidade da Nexa Resources, Thais Laguardia, e o diretor de Sustentabilidade e Assuntos Regulatórios do IBRAM, Júlio Nery.

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