A Coluna do Roberto Maciel (terça, 7.9): Os golpistas diante das consequências do que cometeram

  • A Coluna começa neste 7 de setembro com trecho de artigo da jornalista Ruth de Aquino no jornal O Globo – antes, é necessário observar de quem se trata a autora. Ruth escrevia para a revista semanal Época, do mesmo grupo empresarial, e entre 2013 e 2016 se dedicou a reger o coro golpista que pedia o impedimento da presidenta Dilma Rousseff (PT). Apesar de a análise atual dela expressar uma preocupação pertinente, não apresenta indício nenhum de essenciais revisão e autocrítica política. Isso, em si, é um impeditivo para que o público enxergue substâncias mais confiáveis.

Vamos ao texto da jornalista, pois:

O que parece covardia pode ser sabedoria. Vamos deixar para sair no domingo 12. Tudo o que deseja o profeta da morte Jair Bolsonaro é um confronto direto, é a desordem, um pretexto para intervir e colocar os militares nas ruas. Esse golpista no Planalto insufla uma guerra civil – de preferência com vítimas. Não está satisfeito com os quase 600 mil mortos da pandemia. Quer mais. Quer o pandemônio. “Uma guerra civil seria ideal para Bolsonaro agora, para tentar decretar o estado de sítio”, me disse o escritor e sociólogo Sérgio Abranches. “Vai ter agente provocador dele buscando pancadaria. Para Bolsonaro dizer, depois, que precisa restaurar a ordem. Por isso, governadores e prefeitos estão cautelosos. Tentam evitar o confronto. A ideia de protestar contra Bolsonaro em outra data, no domingo, tira dele seu maior trunfo”. A obsessão de Bolsonaro é a morte. Não a independência. Vemos tudo isso há tanto tempo. Sempre adulou torturadores. Bolsonaro é o coveiro do Brasil e imita, com riso e galhofa, a falta de ar de pacientes de Covid. Explora suas cirurgias com imagens escatológicas. Ninguém merece ser exposto à barriga do presidente. Nem ao resto dele. A morte é sua principal conselheira, não o tchutchuca do Paulo Guedes. E é por isso que afirma que só sai morto da política. A derrota ele rejeita. A prisão ele abomina. Convoca a população a uma batalha campal, enquanto se protege com sua guarda. É uma cilada.  

Faz sentido
O registro é justo, sim. Nos dias em que estamos, associando-se denúncias de grossa corrupção com autoritarismo profundo, formações de quadrilhas que assaltam os cofres públicos com a compra de apoio parlamentar em tenebrosos acordos de liberação de verba, nada mais cabível do que se buscar frustrar ações antidemocráticas.

Ruth de Aquino - O Globo

Não foi Dilma quem “deixou explodir”
No entanto, é necessário que se conheça o conteúdo dessa personagem. Afinal, foi da lavra da própria Ruth (foto acima) esse ataque a Dilma em março de 2016: O sonho de Dilma é deixar explodir na mão de qualquer outro a massa falida em que seu governo transformou o Brasil e sair por aí de bicicleta. Só se fala de Lula. A presidente deve agradecer de joelhos à Justiça atabalhoada brasileira, que tem desviado o foco das denúncias contra seu governo. Dilma tentou ser populista e popular. Não conseguiu ser uma coisa nem outra. O “dilmismo” nunca passou de um cenário provisório e improvisado.

E não era por ignorância
Ruth de Aquino sabia exatamente o que viria com a desestabilização de Dilma e das instituições republicanas. Longe de ser uma ignorante, ela anotou que “O populismo é a ideologia da ignorância. Confunde esquerda e direita, mistura promessas na mesma sopa. O populismo se sustenta em líderes carismáticos e se alimenta da manipulação da massa. A História tem exemplos com resultados dramáticos”. Ela escrevia sobre Bolsonaro com clarividência impressionante, embora poucos pudessem levar a sério na época (ou na “Época”), inclusive a autora, que tal elemento ascenderia ao poder.

Deu nisso
Não se quer aqui deslegitimar a crítica ou descredenciar a opinião de uma jornalista. Menos ainda auferir valor ao governo de Bolsonaro, que não tem valor. Nosso intuito é mostrar no que deu a aventura golpista de 2013 a 2016, movida juntamente com tentativas de criminalizar e de massacrar movimentos progressistas, articulada por tucanos, banqueiros e donos da mídia. Se Jair Bolsonaro e os filhos, Olavo de Carvalho, Zé Trovão, Sérgio Reis, Eduardo Pazuello, Augusto Heleno, Allan dos Santos, Sara Winter, André Fernandes, Wagner Sousa, Mayra (“Capitã Cloroquina”) Pinheiro e outros estão por aí, assombrando o Brasil e o mundo com a tragédia do passado, foi por obra e (des)graça de quem insuflou o ódio.

O fascismo é menos bronco do que Bolsonaro
Mais do texto de Ruth de Aquino – uma demonstração de que, como se diz popularmente, agora alguém “está correndo atrás do prejuízo”:

Bolsonaro não é fascista, o fascismo era mais sofisticado, menos bronco. Eu temo concordar com Abranches. Geneticamente, Bolsonaro se identifica mais com o nazismo. Seu apoio se concentra em grupos armados da PM, das Forças Armadas e de civis que ele está conseguindo armar. “Hitler fez isso com as SA (Sturmabteilung ou Tropas de Assalto), as milícias paramilitares. Em outra medida, Chávez fez isso na Venezuela, com as milícias bolivarianas”. O povo não está com Bolsonaro nem poderia, sem feijão, sem luz e sem emprego. Deus não está com ele. O Supremo Tribunal Federal tampouco. Os generais? Divididos. Em off não o apoiam. Em on, só criticam Bolsonaro os que já deixaram o governo. O Centrão está com Bolsonaro? Sim, até o barco naufragar. A Câmara está com Bolsonaro e por isso não analisa pedidos de impeachment? Mais ou menos. A Câmara tem medo. Da radicalização. Existe sim risco de golpe. Não há “ambiente”? Pois Bolsonaro está criando. (…) Temos um presidente subversivo na pior concepção. O pandemônio é sua única saída. É o que pode livrá-lo da derrota fragorosa nas urnas e da prisão. A “fotografia” que Bolsonaro, o incendiário, quer transmitir para o mundo é o quebra-quebra. São seus apoiadores que sairão às ruas armados. Aproveite o 7 de Setembro para celebrar a vida, entre os seus. Com máscara e vacina. Olhe pela TV a demonstração de ódio e intolerância, financiada por grupos poderosos. Esse é o conselho que dou a meus filhos. Proteste em outro dia, não bata boca com milícias bolsonaristas. A voz da Oposição será mais forte depois. Paz, amor e saúde para você.

Coluna da Hora
Hoje é terça-feira, mas, diferentemente de outras não teremos a live do projeto Coluna da Hora, no Instagram. Por conta deste feriado de 7 de setembro, estaremos no ar somente amanhã. E teremos um convidado especialíssimo: o jornalista, radialista e agitador cultural Nelson Augusto (foto abaixo). É um profissional que conhece como poucos a cultura pop, a arte musical e as relações que essas manifestações têm com a política. Acompanhe, então.

Começaremos às 18 horas, em @robertoamaciel.

Diga lá
O acesso a esta Coluna e ao InvestNE é aberto, independente. Leitores e leitoras podem entrar em contato por intermédio do e-mail portalinvestne@gmail.com e do número de WhatsApp: +55 85 99855 9789. Ou no espaço para comentários do site, bem abaixo da Coluna.

Fala com outro tom
E a Coluna deste 7 de setembro termina com um pronunciamento. É do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que ontem postou vídeo em que, numa perspectiva diferente da de Jair Bolsonaro e aliados, fala sobre este 7 de setembro. Em vez de estimular manifestações e protestos, em vez de proferir ameaças, ele adota uma retórica voltada para a esperança de que o Brasil pode ser tirado da situação degradante em que está. Veja:

Deixe uma resposta