A necessária – e rentável – aposta na construção civil

Artigo de Eduarda Fabris, diretora-executiva da Urbe.me:

Novos rumos da construção civil

Após dois anos de recessão, iniciados em 2015, a economia brasileira vivia um crescimento pífio que, quando parecia ganhar algum impulso, foi traumaticamente interrompido pela pandemia. Projeções apontam para uma queda do PIB entre 6% e 9% neste ano. A volta do nível de atividade aos patamares pré-crise é aguardada somente para 2023. Impacto mais dramático da situação, o desemprego passou de 11,6% para 13,3%.

Embora esses dados apontem para um desamparo generalizado, há setores da economia real que se mantêm ativos. Alguns deles têm efeitos multiplicadores, ao influenciar, a partir de sua demanda por produtos e serviços, inúmeras cadeias, impulsionado a manutenção e geração de empregos em diversos segmentos. Neste aspecto, a construção civil, que mantém bom nível de vendas em alguns perfis de lançamentos residenciais, é fundamental para a recuperação econômica.

A fim de garantir a demanda por novos imóveis, os financiamentos habitacionais dos bancos públicos têm suas taxas reduzidas de forma recorrente. Os impactos dessa política ganham eco no programa Minha Casa Minha Vida que, por conta do déficit habitacional superior a 55 milhões de moradias, mantém as vendas do segmento popular mesmo em meio à generalizada perda de poder aquisitivo. Também garantem atividade ao setor alguns perfis de lançamentos de alto padrão.

Mesmo com o quadro atual levando à postergação de intenções compra, a construção civil terá de erguer novos empreendimentos para atender a uma demanda que, mesmo reprimida, ainda se fará presente. Para tanto, precisará de novas fontes de crédito. Se na ponta do consumidor final há alternativas, os recursos que viabilizam a atividade do setor tornam-se escassos.

A construção civil já se vale de formas inovadoras para se financiar, as quais, a partir do quadro atual, tendem a se multiplicar, ganhar escala e, nas modalidades já existentes, escopo. Surgido no país há cinco anos, o crowdfunding imobiliário tem atraído número crescente de pequenos investidores. Seduzidos por rendimentos que, nas operações concluídas até hoje, registram média de 14,5% ao ano com picos de 20% anuais, são reunidos em grupos para, com aportes que partem de R$ 1 mil, levantar montantes crescentes de recursos usados por incorporadoras na realização de seus projetos. No país, o modelo possibilita a pessoas físicas aplicar, mesmo com pequenas quantias, em uma opção significativamente rentável do financiamento à construção civil, antes restrita a investidores qualificados.

O crédito de bancos ao setor tem das menores taxas do mercado. Mas só chega às empresas conforme etapas das obras são concluídas. Além de ser um capital que chega depois – cobre gastos já realizados –, é restrito às obras em si. Para o custeio de atividades como incorporação, documentação, lançamento, marketing e outras, empresas recorriam, necessariamente, em troca de alguns milhões, ao ingresso de um sócio. Enquanto esse tipo de investidor posterga decisões por conta crise, o crowdfundig cresce como opção.

Apesar da remuneração paga aos cotistas da modalidade estar entre as mais elevadas do mercado hoje, ela representa um desembolso bem menor que incorporadoras teriam recorrendo às fontes tradicionais para custeio dessas etapas de seus projetos. O crowdfunding também tem possibilitado a incorporadoras e construtoras, com obras já iniciadas, terem melhores chances de obter os financiamentos de bancos para o custeio do restante de seus projetos.

Mesmo na crise atual, alguns segmentos mantêm seu nível de atividade e, com a fixação da taxa de juros em seu patamar histórico mais baixo, aplicações em ativos da economia real passam a figurar entre as mais rentáveis. Se o momento não é favorável para grandes desembolsos, essas novas modalidades de crédito, ao possibilitarem excelente remuneração a partir de pequenos aportes, garantem a chegada de capital ao setor produtivo, garantindo empregos e o giro da economia.

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