Futuro dos negócios deve abranger inclusão

Startups, fintechs, future ready, o que todas essas nomenclaturas do empreendedorismo inspiram são novos modelos de negócios capazes de criar impacto e transformar territórios. Mas, para que elas cumpram esse papel é preciso criar ações efetivas para que haja maior inclusão e, de fato, estes novos modelos de negócio, gerem o impacto social esperado. Dentro desta perspectiva, a MIT Sloan Management Review Brasil promoveu um talk com quatro empreendedores com essa visão para discutir a inclusão no futuro dos novos modelos de negócios.

“Quando olhamos para o futuro, fala-se muito do futuro de automação, novas tecnologias e dados, mas as pessoas esquecem que antes de existir essa lógica de futuro, precisamos olhar para a diversidade e a inclusão. Mais do que isso, precisamos trazer essa perspectiva para as pessoas”, comenta o mediador João Souza, colunista da MIT Sloan Management Review Brasil co-fundador e Head de Futuros Inclusivos do FA.VELA .

Durante o painel, João Souza conversou com três empreendedores que criaram novos modelos de negócios baseados na inclusão da população de baixa renda: Fábio Moraes, fundador da Fave.lar, Fernanda Ribeiro, co-fundadora da Conta Black e Taynara Alves, fundadora da InQuímica.   

Os empreendedores debateram como a tecnologia e a inovação podem dar acesso à população de baixa renda; de que maneira os novos modelos de negócios, criados com essa visão, estão surgindo e os desafios e fatores decisivos para o sucesso destes negócios. E, especialmente, como é possível que negócios sociais sejam rentáveis e gerem impacto social.

De acordo com Fernanda Ribeiro, quando se observa startups lideradas por pessoas pretas, não há nenhum mapeamento feito sobre isso. Fernanda criou uma conta digital focada na inclusão da população de baixa renda e preta para ampliar a bancarização deste público. Atualmente, cerca de 65 milhões de pessoas no Brasil não tem acesso a uma conta bancária.

“Por gênero, existe um dado da associação brasileira de startups que apenas 15% das startups do Brasil são lideradas por mulheres. E, se a gente destrinchar um pouco mais e entrar no campo de investimentos, somente 2% destas empresas lideradas por mulheres são investidas pelos grandes fundo. E como olhar para o futuro sem questionar esses números? essa realidade?”

Um outro dado mencionado por Fernanda é sobre o resultado da liderança feminina. De acordo com um dado internacional, as startups lideradas por mulheres que são investidas por grandes fundos retornam até 52% mais do que as startups lideradas por homens. “E este não é só um retorno financeiro, mas também o impacto para o entorno.”

Química de formação, Taynara Alves criou uma startup focada em uma solução para retirar metais pesados de frutas, legumes e verduras e dar acesso à alimentação de qualidade e saudável à população de baixa renda que não tinha acesso a alimentos orgânicos. Esse olhar para a realidade da sua comunidade de origem na zona leste paulistana foi o que a levou unir sua formação à veia empreendedora, gerando inovação.

A empreendedora trouxe para a discussão a realidade do Brasil com relação ao baixo investimento em ciência e o quanto isso influencia negativamente na perspectiva de futuro do país. “Ao se pensar em futuro, em inovação, é preciso investir em ciência. Não existe futuro, sem essa visão de longo prazo e ciência é investimento em longo prazo. E para pensar em inovação (e novos modelos de negócio com inclusão) é preciso olhar a necessidade das pessoas e em qual realidade essa população está inserida”.

Para os empreendedores o caminho para dar acesso às comunidades e gerar transformação e impacto social é olhando para o entorno. Fábio Moraes, cujo negócio social é dar acesso a financiamento para projetos de construção e arquitetura em favelas, lembra que o déficit habitacional do país é enorme. Há, pelo menos 12 milhões de moradias que que necessitam de reforma com assistência técnica. Um potencial de mercado enorme, mas que precisa ser considerado em sua realidade.

“Grande parte da população que mora em favelas vive com menos de 20 reais por dia. Quando você tem que escolher entre melhorar a sua casa e colocar comida na mesa é uma escolha que obviamente a casa fica em segundo plano. “Muitos investidores perdem a capacidade de olhar os negócios e as necessidades dos consumidores de uma maneira sistêmica, o que os empreendedores locais têm para com seus territórios”, explica.

Ele reforça que ainda é um grande desafio mostrar o potencial empreendedor, criativo e inovador da favela. E acredita que capacitar as pessoas é a melhor maneira para que elas possam melhorar a qualidade de vida e tornar as comunidades mais sustentáveis.

Fernanda concorda com ele e reforçar que é preciso enxergar as pessoas como pessoas e não como mercado. “Isso acontece quando se dá voz para os atores que estão fazendo as micro revoluções”.

A íntegra deste evento pode ser assistida no canal do Youtube da MIT Sloan Review Brasil, cuja terceira edição do Frontiers Unlock irá acontecer entre 15 e 17 de setembro.

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