Estudo aponta o impacto da “Economia Prateada” na inovação e nos negócios

De acordo com o Federal Reserve, o banco central dos EUA, as famílias norte-americanas acumularam cerca de US$ 112 trilhões de dólares em riqueza, em 2019 – cifra que reúne imóveis, ações e investimentos, ou seja, todo o patrimônio familiar. Desses, US$ 34 trilhões estavam nas mãos da Geração X e dos Millennials; os demais 70% desse montante, US$ 78 trilhões, estavam sob o comando dos nascidos até 1964. Esses dados comprovam que a Economia Prateada – conjunto de produtos e serviços que atende aos indivíduos com mais de sessenta anos – representa o futuro da economia mundial. Segundo a Harvard Business Review, esse mercado prateado deve movimentar US$ 15 trilhões no mundo, em 2020. No Brasil, o montante será de R$ 1,8 trilhão de reais (Instituto Locomotiva); Estados como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, para se ter uma dimensão, já contam com uma população formada por mais sessentões do que jovens com 14 anos, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Essas são algumas das conclusões do TrendBook Negócios, segundo eixo do projeto FDC Longevidade, que traz análises aprofundadas nos capítulos: Dinheiro Prateado (consumidores maduros, mergulho no bolso dos 60+, luxo prateado e dicas práticas de comunicação para encantar os consumidores); Um Mercado em Ascensão(oceano prateado de oportunidades; marcas que surpreendem os maduros; a pluralidade do mercado de longevidade; e a busca por unicórnios prateados); Inovação (cenário brasileiro, oito soluções inovadoras para os desafios do envelhecimento, desviando da morte: a corrida pela extensão da vida; o desafio da parceria ideal entre tecnologia, saúde e envelhecimento, entusiasmo, investimento e confiança); Os Tubarões do Oceano Prateado(em busca do empreendedor prateado, os fundadores das maiores empresas de tecnologia investem na longevidade, depois do Silício, a prata – o surgimento dos Vales Prateados); e Empreendedores (silver makers, influenciadores digitais 50+ invadiram as redes sociais).  

De acordo com Michelle Queiroz, professora-associada da FDC e coordenadora do FDC Longevidade, o estudo apresenta conclusões propositivas em três grandes linhas-mestras: analisa o mercado da longevidade e o consumo dos maduros; revela a ascensão deste oceano prateado, destacando oportunidades e inovações; traz cases de investidores e empreendedores. “O resultado comprova o potencial consistente do mercado dos maduros, mostrando uma gama enorme de possibilidades, que ainda podem ser exploradas e que muitos desconhecem”, afirma a coordenadora.

Segundo Layla Vallias – especialista em Economia Prateada, cofundadora da Hype50+ e Janno, coordenadora do estudo Tsunami Prateado (maior mapeamento brasileiro sobre longevidade) – a prática da inovação, empreendedorismo e pesquisa de tendências traz o desafio disseminar entre os gestores de grandes marcas, indústrias e governos dados que comprovam o quanto o envelhecimento da população apresenta oportunidades reais. “A revolução que estamos vivendo nos obriga a revisitar conceitos, quebrar padrões e discutir tabus. Para os mais estratégicos, é nesse oceano azul da longevidade que reside as grandes oportunidades para o futuro”, afirma.

Para o diretor-presidente da Unimed-BH, Samuel Flam, o setor de saúde precisa entender as necessidades desse público e se adaptar para atendê-lo. “Como as pessoas estão vivendo mais, elas precisam envelhecer com mais qualidade de vida; o nosso papel é apoiá-las para que entendam a importância do envelhecimento ativo, com autonomia e independência. Será cada vez mais importante, para os negócios de saúde, investir em ações de prevenção ao longo de todo o curso da vida, procurando alternativas para manter os idosos social e economicamente integrados, e independentes. A Unimed-BH vem acompanhando de perto as mudanças que estão ocorrendo na sociedade brasileira. Estamos atentos e desenvolvendo projetos e iniciativas que atinjam diretamente esse público, sempre com foco em oferecer a melhor qualidade assistencial e a inovação de forma contínua”, afirma Flam.

INSIGHTS DO ESTUDO

| O DINHEIRO PRATEADO  

_ O grupo de cidadãos com mais de 50 anos é o que mais cresce no Brasil e nos países desenvolvidos; os maduros têm vidas mais longas, mais saudáveis e mais produtivas. O consumo deles vai muito além de gastos com a saúde; cada vez mais, eles viajam, investem, namoram, empreendem e voltam às salas de aula. O consumo se dá, também, pela internet. O estudo The truth about online consumers, conduzido pela KPMG, em 2017 – trouxe dados surpreendentes; após entrevistar 18 mil pessoas que realizam compras online em 51 países, incluindo Brasil, o levantamento mostrou que os baby boomers fazem quase tantas compras online quanto os consumidores da Geração X e Millenials. Os maduros fazem 15 transações por ano; as demais gerações, 19 e 16, respectivamente; o gasto médio deles, por compra, é o maior entre as gerações: 203 dólares, seguido por 190 e 173. “Vale analisar que esses dados refletem um cenário anterior à pandemia, ou seja, hoje esse volume de compras deve ser maior”, afirma avalia a futurista Mariana Fonseca, uma das coordenadoras do TrendBook.

_A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do segundo trimestre de 2020, aponta que os brasileiros com mais de 60 anos representavam 8,6% da população ocupada (pessoas trabalhando) na semana de referência do estudo. A participação dos maduros aumentou quase 40% desde 2012, quando era de 6,2% – um aumento relevante mesmo de 2019 para 2020, apesar da pandemia.  

De acordo com estudo da pesquisadora Ana Amélia Camarano, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado em outubro deste ano, mais de 600 mil trabalhadores com 60 anos foram para a inatividade entre o fim de 2019 e o segundo trimestre de 2020. Outros 605 mil foram demitidos. Os números revelam que, se antes da pandemia a geração de vagas já era menor para maiores de sessenta anos, a situação se agravou, com mais demissões do que contratações nesta faixa etária. Em agosto, foram geradas 263,7 mil vagas com carteira para quem tem abaixo de 60 anos e eliminadas 14,3 mil entre os mais velhos, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério da Economia. De acordo com o levantamento, 71% dos idosos estão no setor de serviços – o mais afetado pelo distanciamento social –, contra 55% entre os mais jovens. 

Um outro dado importante: os 60+ que permanecem trabalhando têm, consistentemente, os níveis mais altos de rendimentos médios reais quando comparados com qualquer outro grupo de idade. Na mesma PNAD do quarto trimestre do 2019, os 60+ tinham rendimentos médios de 2.977 reais, quase 200 reais acima do segundo lugar, os brasileiros de 40 a 59 anos.

_ O luxo é prateado. Em entrevista exclusiva, Carlos Ferreirinha, o maior especialista em mercado de luxo do Brasil, afirmou que o mercado de luxo tem esse público muito claro. “As principais marcas globais, principalmente do mercado europeu, têm no público 50+ o seu consumidor mais expressivo. E, por motivos óbvios: se considerarmos o conceito de geração de riqueza tradicional, o maior patrimônio está nas mãos da geração com mais de 50 anos. Esse fenômeno que nós vemos hoje, de jovens empresários que geram grandes fortunas com pouca idade, é um movimento recente, acelerado, principalmente, pelo surgimento de empresas de tecnologia nas mais diversas áreas. Portanto, para as marcas de luxo tradicionais, que já estão há décadas no mercado, lidar com o cliente 50+ sempre foi a realidade. Porém, acredito que o grande desafio para essas marcas é entender quem é o novo consumidor sênior. Eles usam street wear, gostam de grafite, querem usar tênis e roupas com mais cor”, afirma.

| MERCADO EM ASCENSÃO

_ Quando olhamos de perto, o mercado da longevidade se torna uma verdadeira boneca russa, com variados perfis de públicos que se desdobram um do outro e demandas de múltiplos setores de mercado – que nem começaram a enxergar a complexidade desta geração.Com expectativa de vida cada vez maior, a população 60+ está cada dia mais ampla e experimenta fases de vida muito distintas, abrindo um leque de diferentes perfis, estilos de vida, idade, gênero e desejos. Dos maduros que participam de maratonas, os que estão abrindo um novo negócio, os que fazem bordados para os netos, aos que são dependentes de familiares ou estão acamados. E é preciso ficar atento, pois este público está em plena mutação. No caso dos maduros dependentes, é importante identificar tanto os públicos a ele interligados, como familiares, cuidadores, profissionais da saúde etc. Estes, por sua vez, têm grande influência nas decisões sobre sua vida financeira, no suprimento de suas necessidades, e nas decisões de compra, portanto, são peças fundamentais nas tomadas de decisões estratégicas para o mercado da maturidade.

_Algumas marcas, ao redor do mundo, já começam a enxergar a força da Economia Prateada. Até mesmo quem não tinha se preparado inicialmente para atendê-los – por acreditarem que o próprio serviço teria mais respaldo entre os jovens – se surpreendeu. Esse é o caso do Airbnb, que comprovou o grande potencial de super hostsmaduros na plataforma. São eles, ainda, que recebem as melhores avaliações da plataforma. O FDC Longevidademapeia as marcas que lucraram com o público sênior como Amazon (Alexa); Nubank; e Trekker.

_Unicórnios prateados. Pode parecer um paradoxo, mas algumas das principais soluções para os problemas enfrentados pelos 60+ estão vindo de empresas jovens, com o foco em tecnologia de ponta e design. Eles estão quebrando o padrão dos produtos e serviços pensados para essa geração, trazendo mais cor, alegria, facilidades e empoderamento aos maduros. São esses jovens empreendedores, à frente das mais diversas startups, que estão de olho no envelhecimento e aquecendo o mercado de investimentos.Essas startups direcionam seus esforços para solucionar desafios que vão desde reduzir a solidão à criação de gadgets que facilitam as tarefas do dia a dia e, algumas delas, têm acertado em cheio, chegando a altíssimos valuations e mostrando que estamos cada vez mais próximos do surgimento do primeiro unicórnio prateado. O estudo FDC Longevidade – Negócios traz um amplo mapa desses negócios que estão revolucionando mercados globais.

| INOVAÇÃO

_Um levantamento conduzido pela Pipe.Social – primeira e maior vitrine de negócios de impacto do Brasil – apurou dados sobre o mercado da longevidade, dimensões dos negócios, potencial de inovação, impacto social e perfil do empreendedor à frente das soluções para os desafios do envelhecimento. O estudo mapeou 343 negócios voltados para atender a chamada revolução prateada. São produtos e serviços adequados aos 60+ que vão de aplicativos para gestão do cuidado, passando por soluções para construção de cidades inteligentes, experiências para bem-estar e melhorar a qualidade de vida dos maduros e até suporte para planejamento do fim da vida.

_ Do total de iniciativas levantadas na pesquisa, 40% delas destinam-se a soluções para o Cuidado e 25% na Gestão do CuidadoEngajamento e Propósito somaram 22%; Estilo de Vida e Mobilidade e Movimento ficaram com 17% e 9%, respectivamente. Neste cenário desafiador encontram-se ainda tecnologias para dar suporte aos desafios em Saúde Mental (8%), Saúde Financeira (5%) e Fim da Vida (1%). “Esse é um mercado extremamente novo, em ritmo acelerado de crescimento e com uma gama de oportunidades para empreender em todo o país. A região Sudeste com 64% concentrou, segundo o estudo, o maior número de soluções, seguido do Sul (13%) Nordeste (10%) Centro-Oeste (7%) e Norte (2%)”, detalha Mariana Fonseca, uma das coordenadoras do TrendBook.

_São negócios jovens, 44% deles têm apenas dois anos de criação e equipes enxutas de até 4 membros (47%) e de 5 a 19 colaboradores (46%), incluindo freelancers. Sobre o perfil da liderança, o levantamento trouxe equipes mistas em sua maioria (45%) e um equilíbrio entre homens e mulheres na liderança do negócio com 23% e 21%, respectivamente. A análise da evolução e faturamento destas startups, apontou uma queda no número de negócios sem faturamento: em 2017 eram 63%; em 2018, esse número caiu para 54% e, no ano passado, foram 44% das soluções. Esse é um dos principais indicadores que determina a maturidade e evolução dos negócios no setor.  Dos 343 negócios analisados, 27% estão faturando até 100 mil reais, mas há aqueles que chegam a faturar mais de 2 milhões de reais. A íntegra do estudo FDC Longevidade – Negócios traz perfis das empresas mais inovadoras mapeadas.

Deixe uma resposta