Ferramentas vindas da natureza são alternativa para novos prefeitos tornarem suas cidades sustentáveis e inteligentes

O primeiro turno das eleições definiu os ocupantes das Câmaras de Vereadores nas 5.570 cidades brasileiras, assim como boa parte de seus prefeitos. No segundo turno, que acontece no próximo dia 29, este quadro se completa. Reconhecidos como entes federativos pela Constituição de 1988, os municípios têm autonomia para decidir sobre diversos aspectos que impactam a sociedade, como mobilidade urbana, ocupação do solo e proteção do patrimônio histórico-cultural local.

Ações voltadas à segurança hídrica, conservação de áreas protegidas e estímulo a negócios baseados em modelos de desenvolvimento sustentável estão ao alcance da atuação da municipalidade para garantir proteção ao meio ambiente e ampliar o bem-estar população local. “Os municípios têm papel central em iniciativas que podem trazer maior resiliência às cidades diante de eventos climáticos extremos, por exemplo”, pontua o gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, André Ferretti.

Um dos caminhos neste sentido são as Soluções Baseadas na Natureza (SBN) que, como o próprio nome diz, usam a natureza para gerar benefícios ambientais, sociais e econômicos. “Contemplar esta estratégia nas políticas públicas de ordenamento territorial deveria ser prioridade para as gestões. Elas encontram na própria natureza a solução para enfrentar desafios urgentes como o risco da falta de água, enchentes e deslizamentos”, explica Ferretti. “As SBN são fundamentais para enfrentar as grandes estiagens e secas que estão afetando cada vez mais diversas regiões do Brasil e do mundo, contribuindo com a proteção e conservação dos mananciais de abastecimento público. Rios, nascentes represas e lagos protegidos pela vegetação nativa são muito menos impactadas em períodos de seca, o que é fundamental para a segurança hídrica”, acrescenta.

O documento Cidades baseadas na Natureza, lançado pela Fundação Grupo Boticário, aponta que 84% das pessoas no Brasil vivem em áreas urbanas (IBGE 2010) e muitas dessas áreas perderam seus ambientes naturais. Ações como a canalização de rios e destruição de áreas de vegetação nativa se refletem hoje em inundações, escassez de água, ilhas de calor e o comprometimento da segurança das pessoas e da infraestrutura urbana.

Algumas das possibilidades das SBN para transformação deste cenário são: utilização de áreas naturais como parte do sistema de drenagem; adoção de parques lineares nas margens de rios para reduzir os impactos de enchentes e inundações; e criação de sistemas de produção sustentável de alimentos para ampliar a segurança alimentar da população ao mesmo tempo que contribui para a segurança hídrica.

“Em diversas cidades do mundo, o desenvolvimento dessas soluções estão trazendo benefícios ambientais e sociais para a população, assim como possibilidades de inovar no campo econômico com a criação de economia verde baseada no capital natural urbano”, explica a urbanista Cecilia Herzog, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), professora e pesquisadora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). “O planejamento, projeto, implantação e monitoramento de SBN são essenciais para que as cidades atinjam diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”, reforça.

Deixe uma resposta