Um “muro de vergonha virtual” divide Fortaleza

Roberto Maciel e Eveline Frota

O presidente do Instituto de Planejamento Urbano de Fortaleza (Iplanfor), Eudoro Santana, avalia que “há um muro de vergonha virtual entre a cidade rica e a cidade pobre. Um percentual significativo de sífilis, que é de 80%, por exemplo, está localizada em 10% ou 12% do território de Fortaleza”.

A constatação do “muro de vergonha virtual”, notado pelo presidente do Iplanfor, deve ser obrigatoriamente compartilhada com tabelas que se referem a cifrões. Afinal, além da vontade política e da responsabilidade gerencial, os investimentos públicos compõem um tripé sem o qual não se poderão superar obstáculos. Assim, é necessário avaliar o volume financeiro que abastece os cofres locais.

Há oscilações que denotam a demanda de modernização das ferramentas de arrecadação tributária, uma vez que os índices de crescimento entre os exercícios fiscais variam significativamente, do mesmo modo como apontam para a urgência de educação aos contribuintes de todos os níveis.

A receita e a despesa previstas para 2021 em Fortaleza, abrangendo arrecadação tributária própria (ISS e IPTU) e transferências federal e estadual (IR, Cofins, ICMS e IPVA, entre outros), são de R$ 9.146.584.414,00. O montante deverá, então, crescer 9,85% em relação aos R$ 8.541.489.019,00 de 2020. Existe um marco evidente nesse avanço, uma vez que os números entre os atuais e os R$ 7.775.295.067,00 de 2019 haviam aumentado apenas 3,37%, mas a diferença entre os indicadores também é um alerta sobre evasões.

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“A desigualdade social se evidencia no plano espacial”

Perfil do superintendente

A definição de Eudoro Santana, pai do governador Camilo Santana (PT) e ex-deputado estadual no Ceará, sobre o não pode ser classificada como nova. Ainda em 2003 – 11 anos antes de ser iniciado o Plano Fortaleza 2040 e 37 anos antes da meta cronológica definida -, as professoras Ana Maria Matos Araújo e Adelita Neto Carleial, da Universidade Estadual do Ceará, cumpriram estudos na Universidade de Barcelona (Espanha) e apresentaram lá trabalho denominado “Opulência e Miséria nos Bairros de Fortaleza”.

O título é revelador da apartação. Diz o texto que “Algumas análises técnico-científicas dividem Fortaleza, a partir de seu Centro, tendo a BR 116, como divisor de áreas, em duas cidades: uma pobre, do Oeste; e outra, rica, do Leste. Esta cartografia da Capital cearense apresenta oposições entre bairros onde moram pessoas de rendas diferentes, que podem ou não, ter acesso aos serviços e aos equipamentos sociais de boa qualidade” (…).

Citando o Centro Josué de Castro, as autoras assinalam que “Antes de mais nada, a desigualdade social se evidencia no plano espacial, na segmentação da cidade configurada por uma divisão entre leste e oeste. A primeira parte, predominantemente habitada pela população de padrões médios e altos de renda, concentra o comércio, os serviços de melhor qualidade e a infra-estrutura de turismo, enquanto a segunda, habitada sobretudo pelas camadas de baixa renda, a indústria, o pequeno comércio, o aterro sanitário e os serviços realizados de modo precário”.

Leia mais:

  • Como o planejamento pode (e deve) ser estratégico para as gestões e seus públicos – https://portalinvestne.com/?p=37429
  • O que esperar para Fortaleza em 2040? – https://portalinvestne.com/?p=37432
  • Um “muro de vergonha virtual” divide Fortaleza – https://portalinvestne.com/?p=37439
  • CadUnico: ferramenta para inclusão social – https://portalinvestne.com/?p=37443
  • A Governança Territorial na pauta do planejamento de Fortaleza – https://portalinvestne.com/?p=37448

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