A Coluna do Roberto Maciel (quinta-feira, 5.11): Os EUA e a lição do Brasil

A inaptidão para a democracia e a inépcia para o respeito levaram o Brasil ao nível em que está
Em que podem se assemelhar as políticas brasileira e norte-americana? Fácil: pela baixa qualidade dos que perdem – aqui, os derrotados; lá, os losers. Vamos às eleições de 2014 no Brasil, à guisa de ilustração. Naquela disputa, com a vitória de Dilma Rousseff (PT) se confirmando em pesquisas de boca-de-urna, o expelido tucano Aécio Neves – um senador mineiro que se notabilizava não pela proatividade ou pela liderança, mas pelo aguçado oportunismo e pela voraz capacidade de aspirar dinheiro de apoiadores, como grandes empreiteiras, em agora comprovados esquemas de caixa 2 – começava quase que automaticamente a conspirar contra o governo. Aliou-se aos piores nomes que da vida pública nacional, entre os quais o sombrio deputado fluminense Eduardo Cunha, e costurou com despudor incomum o arremesso de pautas-bomba contra a Planalto. O objetivo era o de impedir Dilma de administrar, acionando sucessivas crises de gestão e impondo ao Estado enguiços fatais. Aécio e Cunha, juntando-se a personagens quase caricatos, como o hoje presidente Jair Bolsonaro, planejaram e executaram um verdadeiro “paredão”. E fuzilaram, assim, a democracia. O que se vê hoje teve origem na inapetência que figuras desse naipe têm para a lei e a ética.

A História não se reescreve

Carlos Bolsonaro posta foto de Moro com Aécio Neves | Poder360


A história nos conta o restante do enredo: somou-se à conspiração o então juiz Sérgio Moro, associado a procuradores da República, e no mais autêntico, indisfarçável e indisfarçado lawfare, afastou-se da disputa de 2018 o ex-presidente Lula e abriu-se caminho para a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Aécio Neves foi exilado da política, submetido a um opaco mandato de deputado federal, e Eduardo Cunha foi convenientemente enjaulado. Moro ganhou de presente o cargo de ministro, mas rapidamente foi jogado ao ostracismo.

Do lado de lá
Saltemos no tempo, então. E sigamos para os Estados Unidos, hoje. Neste momento, enquanto escrevemos esta coluna, países inteiros acompanham com apreensão o desenrolar das eleições na mais forte potência econômica e militar do planeta. Como sempre polarizado entre os partidos Democrata e Republicano, o contexto dos EUA opõe o ex-vice-presidente Joe Biden ao atual presidente, buscando reeleição, Donald Trump. Biden está à frente. Prenuncia-se a derrota do exótico, xenófobo, misógino, excludente e perigoso Trump e a retomada do poder pelos democratas. Frente a isso, a retórica do republicano de topete platinado já incorpora sinais de inconformismo com a democracia – algo que os norte-americanos dizem prezar – e de judicialização do pleito. Sim, os gringos que se cuidem – nós já mostramos a eles como não se deve fazer. Basta, agora, que eles aprendam a lição e saibam repudiar os malfeitores.

Outro sentido
Por conta das eleições municipais, a Assembleia Legislativa do Ceará não terá sessões deliberativas até o próximo dia 15. As rotinas do plenário serão retomadas na semana seguinte à votação.

Corpo-a-corpo
E ganha atenção nacional a disputa eleitoral em Fortaleza. Engodadas num incomum empate técnico, as candidaturas do pedetista José Sarto, da petista Luizianne Lins e do bolsonarista Wagner Sousa se engalfinham em busca de votos que as conduzam ao segundo turno.

Ao lado

Em novo vídeo, Lula diz que insistiu para que Luizianne Lins fosse  candidata em Fortaleza - Blog Edison Silva


Um ponto ganha destaque especial. É o dos apoiadores. Sarto tem ao lado o prefeito Roberto Cláudio e o governador Camilo Santana, além dos irmãos Cid e Ciro Ferreira Gomes. Luizianne Lins se sustenta no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (acima). O apoio de Wagner parte do presidente Jair Bolsonaro e do ex-presidente Fernando Collor de Melo.

Foco

José Sarto ressalta gestões dos prefeitos de Fortaleza e São Gonçalo

Dos candidatos, Sarto (foto acima) conseguiu estabelecer uma argumentação rara. Ele tem dito e repetido que o momento não é de divisões, mas de união. E chega a sugerir ao eleitor que ouça e avalie até as propostas dos demais candidatos. Isso não tem nada de frequente ou banal. Deputado estadual, presidente da Assembleia Legislativa, Sarto admite como desafios a crise sanitária causada pelo coronavírus e os efeitos nocivos da pandemia na economia.

Fogo
Está tramitando na Câmara dos Deputados projeto que institui regras para a criação de consórcios públicos para a proteção do meio ambiente. O texto prevê que participantes do consórcio (em geral municípios) poderão constituir brigada de incêndio única. Infelizmente, falar ao mesmo tempo de incêndio e meio ambiente está sendo a cara do Brasil.

The Intercept


Não fosse o portal The Intercept Brasil, o mesmo que denunciou ao mundo a armação urdida por Sérgio Moro e procuradores da República em Curitiba, que resultou na prisão de Lula e na eleição, em 2018, do hoje presidente Jair Bolsonaro, poderia ter passado despercebido, incluído entre as questões comezinhas do Judiciário brasileiro, o caso de estupro da modelo e promoter catarinense Mariana Férrer.

Humilhação
Vítima do abuso sexual cometido por um empresário de Florianópolis (veja aqui), Mariana se viu humilhada e agredida pelo advogado do réu em audiência. Não só a virulência do representante do acusado, mas a complacência do juiz e do promotor do caso, chamaram atenção. Pior: colocaram em dúvida, mais uma vez, a necessária credibilidade da Justiça brasileira.

Estupro culposo
The Intercept chamou de “excrescência jurídica” o que se praticou no tribunal catarinense. E é. O site chegou a comparar a situação a “uma espécie de ‘estupro culposo'”, no qual o culpado pode ter cometido o crime em querer cometer o crime – dá pra entender? Não dá, assim como não dá para enxergar justiça num julgamento em que a moral da vítima é triturada e o criminoso sai lépido, fagueiro e mimado pelo Poder Público.

Em vídeo
Também estou no Instagram, em parceria com a jornalista Eveline Frota (@evefrota ou @robertoamaciel), com lives às terças e quinta-feiras denominadas “Coluna da Hora”. Nossas reuniões começam sempre às 17 horas. Ainda comparecemos semanalmente, com o músico e videomaker André Reis, em canal de vídeos na plataforma YouTube (www.youtube.com/colunadahora).

Alô!
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