Racismo: o efeito Carrefour e Nubank nos bancos, e a luta diária dos negros por igualdade

Artigo de Ivone Silva, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo:

Foto: Seeb/SP

Na quinta-feira 19, véspera do Dia da Consciência Negra, João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, morreu após ser agredido por um segurança e por um PM temporário, no supermercado Carrefour, na zona norte de Porto Alegre. Quantos casos já foram registrados de racismo dentro de estabelecimentos comerciais? Se o cliente fosse branco, a abordagem seria a mesma?

A partir deste crime bárbaro – que não pode ficar impune, o que exige a responsabilização tanto dos autores quanto das empresas envolvidas – gostaria de pedir uma reflexão sobre o racismo estrutural e o comportamento das instituições diante desta mazela brasileira. 

Em novembro do ano passado, o Itaú realizou uma seleção para seu programa de trainee e excluiu majoritariamente candidatos negros e pardos. Em uma foto que viralizou nas redes sociais, dos 125 aprovados no processo seletivo, não havia uma pessoa negra ou parda. Por outro lado, quando o Magazine Luiza realizou um programa de trainee voltado para candidatos negros, em setembro deste ano, foi alvo até mesmo de uma ação judicial que contestava a legalidade da iniciativa. 

Outro triste episódio, com o Nubank, também nos faz refletir. Recentemente, a cofundadora do banco afirmou que o nível de exigência para se trabalhar na empresa é alto e que não dá para “nivelar por baixo”, em referência a uma possível política afirmativa para candidatos negros, durante sua participação em um programa de TV. Com a repercussão negativa, o banco pediu desculpas e se comprometeu a “avançar, dentro e fora de casa, com uma agenda de reparação histórica e de combate ao racismo estrutural”. 

Não temos dúvida que o racismo no Brasil é estrutural, com práticas, hábitos, situações e falas embutido em nossos costumes e que promove, direta ou indiretamente, a segregação ou o preconceito racial.

No primeiro semestre de 2020, os cinco maiores bancos atuantes no país tiveram um gasto de R$ 1,4 bilhão com propaganda e publicidade. Parte dessa propaganda destina-se a vender uma imagem de responsabilidade social, boas práticas de gestão e valorização da diversidade. A prática, como veremos, é bem diferente do discurso.

De acordo com dados do censo da categoria bancária, em 2014, as pessoas pretas nos bancos eram apenas 3,4% e as pardas somente 21,3%. Em relação à remuneração, as mulheres negras nos bancos recebiam o equivalente a apenas 68% do que recebiam os homens brancos.

Dados mais recentes, a partir dos Relatórios Anuais do bancos, em 2019, mostram que os bancos avançaram pouco. O Itaú teve um percentual de negros de 1,80% no cargo de direção e 14,6% entre os gestores. Nos cargos comerciais e operacionais estão o maior número de negros: 27,4%; mas o índice total chega apenas a 22,88%.

No Bradesco, são mais de 97 mil funcionários de quatro gerações distintas, dos quais 50,4% são mulheres e apenas 26,4% são negros. Na Caixa, apenas 24,2% dos empregados são negros.

No Santander, na diretoria estão 3,3% de negros. No Banco do Brasil, nos cargos de chefia, pretos, pardos e indígenas chegam apenas a 21,98%.

A igualdade de oportunidades é uma reivindicação da categoria. Nossa mobilização precisa reforçar a importância de oportunidades iguais como mais um eixo de resistência por um país mais justo e igualitário. 

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