A indigência política da pobreza e da desigualdade

Artigo de Arnaldo Santos, jornalista, sociólogo e doutor em Ciências Políticas:

Na realidade em curso, divisa-se, meridianamente, o fato de que expressiva parcela da população brasileira, é suprimida por esse viajante sem passaporte que atende pelo nome de covid-19. O mesmo tem o assombroso apelido de coronavírus e mata em escala ainda fora de controle, haja vista o fato de que, enquanto escrevia este texto, já eram quase 188 mil mortos e mais de 7,3 milhões de infectados.

Isto nos faz enxergar a verdade, conforme a qual o motivo principal descansa na negligência desse desgoverno, que, além de jamais haver estruturado uma governança das ações para enfrentar a pandemia, descumpriu e desrespeitou todos os protocolos sanitários até aqui. Mesmo agora, após esse alteado número de vidas perdidas, ainda assim, recusou-se o quanto pôde a comprar as vacinas e a estruturar uma campanha com vistas a sua aplicação.

Esses altos indicadores de mortos e infectados provocaram um fato inusitado, sendo o primeiro registro na história da humanidade de que se tem conhecimento – o cancelamento da vinda Papai Noel, neste ano, ao Brasil, pois, como faz parte do grupo de risco, ao ser informado da resistência do governo em vacinar a população, preferiu não ser submetido a este perigo. Ante, pois, tais circunstâncias, aqueles que ainda mantêm preservado o uso da razão precisam atentar para o agravamento das condições socioeconômicas da população, no pós-pandemia antes que todos nos transformemos em jacarés (sinônimo de bestas), após tomarmos a vacina, ou o aluado (com todo o respeito ao nosso Satélite) autor dessa aloprada declaração seja devorado pelos jacarés (os animais) que o espreitam à beira do lago Paranoá.

Em razão, pois, consequências sociais ainda não mensuradas, faz-se necessária uma rápida passagem por esses quase 131 anos de República, (1889/2020), quando a indigência política e econômica, legada pela elite dirigente brasileira ao povo pobre e trabalhador, foi de tal maneira embrutecedora, desprovida de sentimento humano e responsabilidade social, que demorou 114 anos, até que elegêssemos o 35º Presidente, para, finalmente, os temas pobreza e desigualdade social serem, efetivamente, trazidos para a agenda política do País.

Sem isentá-lo de quaisquer desvios e atos de corrupção, suscetíveis de ter ocorrido em seus dois governos, gostem ou não seus opositores e detratores – de ontem e, principalmente os de hoje – é imperioso registrar que só depois da eleição do Presidente Lula, para, já no início do seu primeiro governo, o País passou a contar com políticas de combate à pobreza e às desigualdades. Tal sucedeu com a instituição dos programas de transferências de renda, como o Bolsa Família, que unificou os demais projetos assistenciais, injetando dinheiro direto nas contas das pessoas pobres, quase sem nenhuma fonte de renda, especialmente para as mulheres chefes de família. No momento em que se discute a criação de outro programa de renda mínima para o Brasil, em meio às articulações para a sucessão presidencial em 2022, deve ser reafirmado o argumento de que foi, desde que instituído o Bolsa Família, que se sustenta pela primeira vez no Brasil um forte programa de desenvolvimento econômico nos territórios. Particularizam-se, in casu, as regiões Norte e Nordeste, fomentando um modelo de economia solidária, cessando, de imediato, invasões e saques nas pequenas cidades, durante os períodos prolongados de secas, como era ordinário antes da sua criação.

A vinda de outro projeto, à imitação do Bolsa Família – impõe-se exprimir – constitui um desejo oportunista e politiqueiro do presidente Bolsonaro, na vã tentativa de apagar da memória do brasileiro o nome do seu instituinte. Nessa contextura de implantação efetiva de políticas de combate à pobreza e às desigualdades, até então ignoradas pelos governos anteriores, não é sem propósito lembrar que, além das políticas de transferências de renda, também foram levados a efeito o programa Minha casa minha vida, o maior e mais abrangente, na área de moradia popular, acompanhado do Luz para Todos, levando energia aos mais remotos locais das regiões pobres do País.

A esses, também, se somaram as políticas de educação, com o PROUNI, e do financiamento público da Educação por meio do FIES, dentre outras, que resultaram em uma ampla mobilidade social e significativos
rebatimentos na redução dos índices de pobreza e desigualdades no Brasil.

Todos esses programas estão hoje sob ameaça e em fase de desestruturação pelo atual governo. Nessa perspectiva, a reflexão que se impõe sobre os graves problemas econômicos e sociais que já enfrentamos – e que deverão se agudizar na pós-pandemia – diz respeito ao desemprego, que vai deixar à míngua milhões de brasileiros, a exigir uma inadiável ação de geração de renda para esse estrato da população. Este é o problema que considero o mais grave e urgente.

A maioria da população entende que, mesmo com todos os avanços na agricultura, a modernização da indústria e a expansão do comércio e serviços nas últimas décadas no Brasil, estes ainda não foram suficientes para situar nossos índices de pobreza e desigualdade em patamares dignos de um país que se pretende democrático e moderno.

É de consenso público a noção de que esse problema é mais acentuado nas regiões Norte e Nordeste, e, infelizmente, esse panorama, no curto prazo, deverá se agravar ainda mais, especialmente em decorrência da modernização tecnológica crescente, que restringe cada vez mais o acesso ao mercado de trabalho, para o contingente mais pobre da população, por ser este o mais distante do domínio dessas novas táticas em acelerada expansão.

Com o advento das Novas Tecnologias, surgiu o conceito de inclusão digital, de que os brasileiros muito ouvem falar, e os mais pobres são cada vez menos incluídos, mesmo com ampliação da cobertura pela internet e o surgimento dos dispositivos digitais móveis, que deram origem ao que o sociólogo espanhol Manuel Castells Olivan chamou de sociedade em rede. Enquanto os socialmente privilegiados usufruem de internet banda larga de 4 e 5G, Wi-Fi, e transmissão de dados em alta velocidade, via fibra óptica, significativa parcela da população não tem acesso a um simples computador e à internet básica, especialmente os estudantes pobres, razão por que estão sem estudar nesse período da covid-19.

Transpondo interesses econômicos, essa moderna infraestrutura tecnológica, também, possui uma função social a cumprir, e os governos, bem assim as empresas do setor, precisam fundar as condições para fazer chegar aos que menos têm e muito precisam, pois, do contrário, as desigualdades digitais vão agravar a pobreza multidimensional, já que não basta a banda ser larga, se o acesso continuar estreito.

A pandemia da covid-19 escancarou o tamanho da desigualdade digital no Brasil, como evidenciam os dados levantados pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), solicitados pelo Unicef, revelando que “[…] 4,8 milhões de estudantes de 9 a 17 anos, não têm internet em casa; o que representa 17% de todos os brasileiros nessa faixa de idade, estando a maioria sem acesso as aulas on-line, e a outros conteúdos que garantam a continuidade do aprendizado” – consoante assinalou Ítalo Dutra, chefe de educação do Unicef.

Nessa escalada de um mundo cada vez mais digital, movido pela automação robotizada, onde, mesmo os mais qualificados já enfrentam dificuldades para se inserir no mercado de trabalho, vale lembrar a frase do pesquisador Stowe Boy, ao assinalar que, […] “a questão central que se coloca já para 2025 é, para que servem as pessoas, em um mundo que não precisa do seu trabalho”? Quando essas pessoas vivem em um País que, além da aguda pobreza do saber, parte da elite dirigente nega todas as modalidades de conhecimento, a opção é morrer, antes de virar jacaré!

Comentários e críticas para: arnaldosantos13@live.com

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