Mulheres lideram melhor nas crises, apontam estudos

O ano de 2020 testou os nervos e as emoções de praticamente todas as pessoas, inclusive a dos líderes de empresas que passaram a gerenciar equipes remotas, tiveram que rever práticas e processos, elaborar novas estratégias de engajamento e o cumprimento de metas – tudo muito rapidamente. O lado curioso disso é que uma série de pesquisas divulgadas recentemente mostram que as mulheres com cargos de liderança se saíram melhor do que os homens durante a pandemia.

Tradicionalmente, elas ocupam cargos mais simples e apenas 34% das lideranças sêniores (diretoria executiva) nas empresas brasileiras têm o comando nas mãos femininas, segundo a pesquisa do International Business Report da Grant Thornton, divulgada antes do estouro da pandemia e realizada com 4.812 empresas, em 32 países. Neste estudo, as mulheres souberam lidar melhor com a pressão imposta ao mundo pelo Coronavírus.

A habilidade natural de ‘fazer cinco coisas ao mesmo tempo’ ajudou as mulheres e tem feito a diferença, especialmente naquelas empresas em que o home office ganhou força. “É claro que os efeitos psicológicos da pandemia impactaram as mulheres, mas elas conseguem administrar melhor a mudança e isso implica não apenas nas questões da casa e no relacionamento com a família, mas em resultados diretos nas corporações”, observa a consultora e especialista na formação de líderes, Luciane Botto.

Sensibilidade com as relações

O assunto foi tema de pesquisa promovida pela Harvard Business Review, divulgada em janeiro de 2021. Segundo o levantamento – focado na prática de gestão de negócios – as mulheres em cargos de liderança mostraram maior eficiência e conseguiram apresentar mais resultados positivos, contribuindo de maneira expressiva para o envolvimento dos trabalhadores.

“As mulheres costumam ser mais intuitivas, empáticas, comunicativas, diplomáticas, cuidadosas e com mais sensibilidade para tratar de assuntos delicados. No dia a dia isso faz muita diferença, especialmente quando observamos o cotidiano das empresas”, enfatiza Luciane, que é mestre em Organizações e Complexidade e coautora do livro “Liderança Integral – A Evolução do Ser Humano e das Organizações” (ed. Vozes, 344 págs.).

E tem mais: levantamento realizado pela consultoria americana McKinsey & Company demonstra que as mulheres possuem a capacidade de inspirar e de servir como modelo de conduta. A seu favor também aparecem a participação ativa nas decisões, o equilíbrio entre expectativas e recompensas e o desenvolvimento de pessoas.

Eficiência e empatia

Outro estudo desenvolvido pela consultoria americana de desenvolvimento de liderança, Zenger Folkman, na primeira fase da pandemia – entre março e junho de 2020, envolvendo 454 homens e 366 mulheres – avaliou líderes nos quesitos de eficácia e liderança.

As mulheres com responsabilidade de liderança foram destaque em vários aspectos deste “novo normal”. Um dos indicadores demonstrou que elas expressam mais consciência dos medos que os seguidores possam estar sentindo, além de apresentar preocupação com o bem-estar e confiança em seus planos.

A pesquisa revelou ainda que as equipes desejam líderes capazes de desenvolver e aprender novas habilidades, que estimulem e contribuam para o crescimento do grupo – independente se o tempo é bom ou ruim. Assim, o resultado é todo positivo para as líderes mulheres, uma vez que elas administram melhor as questões emocionais e são mais propensas a compreender questões pungentes do momento: estresse e frustração.

“As competências interpessoais – as chamadas soft skills – fazem a diferença no universo feminino, mas ainda há muito a se aprimorar, especialmente nos quesitos autoconfiança e assertividade”, afirma a especialista Luciane Botto.

Para a consultora – que vira e mexe também é colocada à prova em ambientes predominantemente masculinos – o segredo não está em “copiar” o comportamento masculino, mas em se ver e se assumir como mulher e aproveitar o que tem de melhor nas qualidades femininas. Uma mulher pode ser assertiva, se posicionar, mas não porque isso é algo “imposto” – e sim porque ela “quer” ser assim. E então pode se revelar nas suas múltiplas versões, com o seu jeito, a sua forma, a sua essência – sem qualquer demérito para isso. Ela pode e deve ocupar os seus diferentes papéis com confiança e assertividade, seja no momento de conduzir uma reunião, de vender uma ideia, gerir conflitos ou até mesmo de tomar a frente de decisões importantes. Em todas essas situações está a versatilidade da mulher.

Menos autocrítica

Luciane acredita que um dos principais pontos a melhorar – quando o assunto é liderança feminina – é a autoconfiança. Isso porque a autocrítica é um fator muito aguçado nas mulheres.

“Conheço líderes tão preocupadas com a performance, com sua capacidade de liderar e empreender, que nunca se sentem suficientemente preparadas, mesmo tendo um repertório incrível. As pessoas a admiram, mas ela não é capaz de reconhecer essas qualidades em si mesma. Algumas passam muito tempo focando em serem perfeitas, mesmo quando a situação requer uma decisão rápida e prática. Eu mesma já me senti assim diversas vezes, e só a partir do momento que comecei a reconhecer o que já tinha construído de verdade que comecei a curtir a jornada e abraçar o propósito com mais leveza e paixão. É impossível uma pessoa sintonizada na autocrítica e na comparação conseguir se sentir inteira. Para ser espontânea, é preciso aprender a deixar fluir e ser leve. Quem se cobra demais, não se diverte. Eu aprendi isso ao observar o comportamento masculino. Eles não parecem se preocupar em acertar todo momento. Eles vão lá e fazem. Errou? Amanhã é outro dia. Simples assim.”, pondera Luciane.

Com a experiência de mais de dez anos de mercado, a especialista em formação de líderes relata que ainda existem aquelas que não se sentem merecedoras de sucesso e vivem se comparando com outras mulheres. Com isso, perdem um tempo precioso preocupando-se com o que os outros vão pensar ou dizer e, quando erram, remoem situações por um tempo maior que os homens – que costumam virar a página com mais rapidez.

Do ponto de vista de Luciane Botto, é preciso ter consciência de que em muitos momentos da vida pessoal e profissional, a confiança é mais importante que a habilidade e que a pluralidade traz ganhos consideráveis na vida. “A liderança feminina ainda enfrenta resistências, inclusive das próprias mulheres. Assim, precisamos apoiar umas às outras. Afinal, não é justo dedicar-se tanto para provar capacidades e, mesmo assim, viver na berlinda quando o tema é um aumento de salário ou promoção”.

A consultora entende que apoiar o crescimento de uma mulher é apoiar a si mesma. “As conquistas femininas no universo corporativo são frutos de muito esforço e trabalho. Mesmo diante de tantas evoluções, há muito a ser feito – a começar pela sororidade: o estabelecimento de apoio mútuo e de alianças saudáveis entre as próprias mulheres”, conclui.  

Deixe uma resposta