Manguezais: imenso valor ecológico e econômico entre terra e mar

Artigo de

Janaína Bumbeer, bióloga marinha e especialista em Conservação da Biodiversidade, e Liziane Ceschim Alberti, oceanógrafa e analista de Conservação da Biodiversidade. Ambas atuam na Fundação Grupo Boticário:

Um dos ecossistemas mais produtivos e generosos da Terra, os manguezais estão presentes em 338 municípios brasileiros, onde vivem 44 milhões de pessoas, o que representa 20% da população nacional. Os benefícios econômicos dos manguezais ao Brasil podem chegar a US$ 5 bilhões, contribuindo com atividades como pesca e turismo, que beneficiam direta e indiretamente o país inteiro, além de uma série de serviços ecossistêmicos de valor incalculável. Apesar de serem berçários marinhos fundamentais para a conservação da biodiversidade, capazes de gerar trabalho e renda para milhares de brasileiros e serem reconhecidos como grandes aliados contra os efeitos do caos climático, eles estão sob ameaça.

Em tese, a proteção aos manguezais está garantida na legislação brasileira (Leis Federais 9.605/1998, 11.428/2006 e 12.651/2012 e Resolução Conama 303/2002), mas, na prática, são vários os fatores de risco. Entre as atividades que mais trazem impactos para o ecossistema estão mineração, sobrepesca, agricultura, aquicultura/carcinicultura, descarga de efluentes não tratados, aterramento, exploração de madeira, desmatamento, ocupação irregular e expansão demográfica.

Soma-se a essa lista a deficiência na gestão de Unidades de Conservação (UCs) e a falta de fiscalização, que vem sendo agravada nos últimos anos. Estudos indicam que 25% de toda a extensão de áreas de manguezais já tenham sido perdidas no Brasil – sendo 36 mil hectares convertidos em tanques para criar camarões somente entre 2013 e 2016, conforme alerta a publicação Oceano sem mistérios: desvendando os manguezais, organizada pela Fundação Grupo Boticário.

O Brasil possui cerca de 12% dos manguezais do mundo todo, contando com uma extensão de 6.786 quilômetros ao longo de 16 estados costeiros – do Amapá até Santa Catarina. Motivos não faltam para olharmos para este ecossistema extraordinário de transição entre terra e mar, inclusive do ponto de vista econômico. Em algumas localidades, os manguezais contribuem com até 50% da pesca artesanal, alimentando o ciclo de vida de espécies marinhas de grande valor comercial, como robalos, tainhas, siris, ostras, caranguejos, entre outras.

Com áreas conservadas, as regiões costeiras ficam menos expostas a inundações e à força dos ventos, ondas e marés. Estudos demonstram que 100 metros de mangue reduzem a força das ondas em cerca de 60%. No tsunami que devastou Sumatra, na Indonésia, em 2004, nas comunidades onde havia manguezal a fúria das ondas foi reduzida e houve um impacto muito menor em comparação aos locais que substituíram os manguezais por resorts e plantações.

Sem manguezais, há redução da qualidade da água costeira, há perda do carbono acumulado e redução dos estoques pesqueiros. Estudos revelam que essas áreas sequestram 57% mais carbono do que outros tipos de vegetação tropical. Portanto, a integridade dos manguezais também é capaz de mitigar o desequilíbrio do clima, um dos maiores desafios do nosso tempo. Como consequência negativa da perda desse ecossistema temos desabastecimento de suprimentos, maior exposição a doenças infecciosas e desgaste de infraestrutura.

Ao proteger os manguezais também preservamos a cultura popular. Há uma riqueza de saberes tradicionais nas comunidades costeiras, onde encontramos histórias, lendas e mitos que ligam o real e o imaginário. Um belo exemplo deste potencial criativo é o movimento Manguebeat, que renovou o cenário cultural do Recife e revelou ao Brasil grandes artistas, como Chico Science & Nação Zumbi e expoentes do teatro e do cinema, mostrando que a tradição também combina com a inovação. É importante destacar ainda a beleza cênica dos manguezais, que pode impulsionar o ecoturismo nessas áreas.

Mesmo com tantas evidências a respeito da importância dos manguezais, parte da sociedade brasileira ainda insiste na dicotomia entre conservação e progresso econômico. É um falso dilema, que definitivamente não faz mais sentido. Não podemos deixar que a busca por lucros imediatos, que beneficia uma pequena parcela da população, gere prejuízos sem reparação para a maioria dos brasileiros. É sempre importante lembrar que a perda da biodiversidade não é apenas uma questão ambiental, mas também econômica, social, cultural e ética.

Parte dessa visão distorcida é alimentada pelo desconhecimento da população. Temos o grande desafio de traduzir para a sociedade o conhecimento produzido pelos cientistas, mostrando nossa ligação inseparável com a natureza. Essa percepção é particularmente desafiadora em relação à nossa conexão com o oceano. Neste sentido, a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030), uma iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU), é muito bem-vinda e representa uma oportunidade única de ampliar nossa consciência sobre a importância dos mares para a manutenção da vida em nosso planeta.

Precisamos inovar nas formas de comunicação, estabelecendo pontes entre cientistas, governos, setor privado, meios de comunicação e todos aqueles que trabalham pela conservação da natureza. Que possamos reconhecer o valor inquestionável dos manguezais para proteger a saúde do oceano, engajando toda a sociedade para uma gestão mais responsável dos recursos naturais de zonas costeiras.

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