Falta bom-senso, sobra estupidez

Artigo de Arnaldo Santos, jornalista, sociólogo e doutor em Ciências Políticas:

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Como sabemos, “bom senso é uma qualidade que reúne as noções da razão e da sabedoria”. Quando dizemos que uma pessoa age com bom senso, isso quer dizer que se utiliza de “argumentações e atitudes racionais para poder fazer julgamentos e escolhas assertivas”, de acordo com os padrões éticos, morais e civilizatórios de uma sociedade. Para Aristóteles, o bom senso é fundamento da conduta ética, uma capacidade virtuosa de encontrar o meio-termo e distinguir a ação correta. Como se observa na tragédia que vivenciamos no País, nenhuma dessas qualidades está nas atitudes e nas ações do senhor presidente da República.

Na semana que passou, guiado pelos seus escassos recursos mentais, e igualmente de parte daqueles que o orientam, o presidente protagonizou dois atos, que seriam impensáveis para alguém que minimamente tivesse noção da
responsabilidade político-econômica e social, da função que exerce, pois, além de não guardar o mais básico dos fundamentos do que se conhece por bom senso, atentaram contra a inteligência coletiva, inclusive internacional.
O primeiro foi o discurso dele na reunião da Cúpula do Clima, que, apesar da mudança de tom, pelo menos na verbalização, foi bastante criticado dentro e fora do País, por não corresponder à realidade em curso. O segundo
foi a decisão de cancelar a realização do Censo Demográfico. Ambos foram por demais prejudiciais à Nação, por não guardarem qualquer relação com a realidade prática do governo, e ambos confirmam o non-sense.

A propósito do cancelamento do Censo Demográfico, é preciso afirmar que, se já éramos pobres de informações sobre a nossa realidade, sua não realização deixa a nossa base de dados paupérrima, pois, além de não atualizar os dados impede a incorporação de mais informações sobre as transformações ocorridas no interior da sociedade na última década. Não é razoável, e chega a ser desesperador, saber que tais ações tiveram a concordância do Ministro Paulo Guedes BTG-PACTUAL, mais conhecido como Posto Ipiranga. Só em um (des)governo negacionista como o que temos, para que um economista de formação liberal, concorde com a ideia de que seja possível a formulação de políticas públicas, sem que se tenham os dados atualizados das condições socioeconômicas de sua população.

Basta que se diga que um dos critérios para formação do Fundo de Participação dos Municípios-FPM, por exemplo, é o número de habitantes; sem esses dados, corre-se o risco que municípios com menor população recebam mais recursos e vice-versa. O mesmo ocorre para a definição de políticas de educação e saúde, e a destinação dos respectivos orçamentos, só para citar as mais emblemáticas.


No itinerário da idiotia e da estupidez, o “discípulo” superou o “mestre”. Na última terça feira, dia 27, o ministro da Economia, com a cara de pau que o caracteriza, acusou a China de ter inventado o coronavírus, e ainda debochou
da eficácia da vacina Coronavac. Não satisfeito, também criticou o aumento da expectativa de vida: “todo mundo quer viver 100 anos” – reclamou. Segundo ele, a longevidade é insustentável para os cofres públicos. Para Guedes, não
foi a pandemia que tirou a capacidade de atendimento do setor público, mas “o avanço na Medicina e o direito à vida”. Reafirmando o preconceito e o
desprezo que nutre contra os pobres, disse ainda que: “[…] o Fies bancou até
filho de porteiro que zerou no vestibular”.

Essas infames declarações de certa maneira, explica o descaso na gestão da pandemia, ao ponto de deixar faltar até oxigênio nos hospitais de Manaus, pois, sendo contra a longevidade e o direito à vida, infere-se que o objetivo era deixar morrer o maior quantitativo de pessoas, como vem ocorrendo, pois já superamos os 401 mil, e esse número continua crescendo. Já somos o segundo país no mundo em número de mortos pela Covid.

Na trilha dessa insensatez, o primeiro ato do presidente, a que nos referimos no início dessa reflexão, nos envergonhou a todos pela falsa publicidade e o cinismo de pretender tentar enganar o Mundo com o festival de
mentiras proferidas diante dos mais importantes chefes de Estado, com um discurso em completo desacordo em relação à realidade, tanto no concernente ao que o governo faz na Amazônia, sobre a preservação ambiental, bem como em relação aos povos indígenas, que, como estamos observando, é a mais criminosa dos últimos 20 anos, em execução pelo ministro do mau ambiente, Ricardo Sales.

O segundo ato foi tão grave e maledicente quanto o primeiro, pois atentou contra toda a Nação. Reportamo-nos ao anúncio na sexta-feira dia 23.04, do cancelamento definitivo do Censo Demográfico de 2021, que deveria ter sido realizado no ano imediatamente passado, e havia sido adiado pelo Ministério da Economia, que alegou não dispor dos recursos necessários solicitados pelo IBGE, para sua realização, face aos gastos com a pandemia.

Felizmente na última quinta feira Ministro Março Aurélio Melo – do STF, determinou sua realização ainda esse ano, como previsto. Para os especialistas em Demografia, sem a realização do Censo, única maneira de que dispomos para atualizar a já empobrecida base de dados sobre as condições em que vive o povo brasileiro, especialmente nesse momento de pandemia, quando as condições de saúde e socioeconômicas, estão sendo substancialmente alteradas, o prejuízo seria incalculável para o próximo decênio, porquanto, como se não bastasse a não atualização dos dados,
deixaríamos de incorporar informações decorrente das transformações por que passa a população.

Sobre a política de proteção ao meio ambiente, enfatizada no discurso que fez na reunião da Cúpula do Clima, ancorado nos dados disponibilizados pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), vinculado à Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil – CNBB, chamo atenção do leitor sobre as inverdades, e as divergências contidas na fala do presidente na referida cimeira. No pertinente à proteção dos povos das florestas, por exemplo, especialmente os índios, as informações amplamente divulgadas pela imprensa evidenciam que, desde o início desse governo, os casos de invasões de terras indígenas explodiram. Somente em 2018, foram registrados 111 em 76 terras indígenas. De janeiro a setembro de 2019, esse número aumentou para 160, em 153 reservas pertencentes às várias etnias.

Faz-se necessário registrar o fato de que, durante a campanha presidencial, o então candidato Bolsonaro prometera que, se fosse eleito, durante o seu governo, não demarcaria nenhum hectare de terra para os índios; é imperioso reconhecer que essa promessa ele tem cumprido. Quando o tema é o desmatamento ocorrente na Amazônia, embora o presidente reafirme, com recorrência, que acontece diminuição, os dados divulgados pelo sistema que monitora o desmatamento, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, apontam que, em março recém passado, voltou a crescer, superando o mês histórico desde o ano de 2015. Quando examinamos as informações atualizadas pelo INPE, no último dia 09 de março, constatamos que o desmatamento atingiu 367,61 km2 quadrados. O recorde anterior data de 2018, quando chegou a 356,6 km2, seguido pelo mesmo período em 2020, que havia sido de 326,49 km2.

Esses indicadores demonstram que o desmatamento da floresta amazônica, no último mês de março, cresceu 12,6%, em relação ao mesmo período de 2020. Esses dados, não só, contradizem, como também desmentem o discurso do presidente, quando afirma que o seu governo está reduzindo a emissão dos gases provocadores do efeito estufa e de que determinou a neutralidade climática até 2050. Essa promessa não encontra amparo na agenda ambiental do seu governo, que, na prática fez aumentar o desmatamento e as queimadas, na Amazônia e no Pantanal, além de
desestruturar os órgãos de controle do meio ambiente, cujo ministro foi denunciado ao STF, pelo ex-superintendente da polícia federal, de acobertar e proteger os madeireiros e o desmatamento ilegal. Essa prática extrapola o limite do razoável e do bom senso, como afirmam vários cientistas ambientais. Ao exposto não é necessário dizer mais: mesmo havendo Censo; falta bom senso!


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