Pesquisa indica que empresas humanizadas, de capital aberto, têm rentabilidade superior às demais

Há uma mudança de paradigma em curso no mundo dos negócios, sobretudo, na Europa, nos Estados Unidos, na Austrália, no Brasil e na América Latina. No século passado, as organizações eram gerenciadas e lideradas sob a visão de produtividade, tratando as pessoas como meros recursos humanos, ou seja, o objetivo era extrair o máximo possível dos profissionais não importando as consequências. No século XXI – quando vemos que as 10 organizações mais valiosas do mundo possuem modelos de negócio baseados em plataformas de serviços –, o diferencial competitivo passa a estar não nos recursos físicos, mas em questões intangíveis das organizações: capital humano, social, intelectual e cultural. Essa é uma das conclusões, amparadas em ciência de dados, da pesquisa Empresas Humanizadas Brasil, conduzida pela startup de impacto social Humanizadas a partir de 36.868 entrevistas e análises de 226 organizações (empresas de diferentes portes).

Coordenada pelo pesquisador Pedro Paro, a pesquisa Empresas Humanizadas Brasil teve início em 2017, tendo por intuito revelar cases positivos de empresas que existem como um contraponto aos casos de corrupção denunciados pela Operação Lava Jato. “Queríamos ter um contraponto aos exemplos negativos que víamos e oferecer um novo rumo e futuro para os negócios do país, e isso com exemplos reais de empresas mais éticas, humanas, conscientes, sustentáveis e inovadoras. Se as palavras movem e os exemplos arrastam, nosso desejo é iluminar os bons exemplos que podem inspirar uma transformação na forma como fazemos negócios no Brasil”, explica Paro.

Performance financeira

O recorte da pesquisa – focado na análise de desempenho financeiro das empresas que são destaque da pesquisa – comprova a tese que a qualidade das relações que as empresas desenvolvem e mantêm com os seus múltiplos interlocutores tem influência direta na performance financeira, governança, social e ambiental dessas organizações. Com base na ciência de dados, a startup Humanizadas criou uma metodologia inédita que identifica o grau de evolução das companhias no tocante à qualidade das relações que as empresas desenvolvem e mantêm com seus múltiplos interlocutores.

Na prática, o índice desenvolvido mede o Rating de Consciência – que está diretamente relacionado à maior percepção de impacto das empresas nos ecossistemas nos quais atuam, envolvendo a capacidade de nutrir relacionamentos de excelência, gerar valor e impacto duradouros. Esse é o alicerce da pesquisa Empresas Humanizadas Brasil, cujo grande diferencial está no envolvimento de diferentes públicos interessados no sucesso de uma empresa, como conselho, lideranças, colaboradores, clientes, fornecedores, parceiros, investidores e sociedade. O mapeamento segue os princípios do Capitalismo Consciente e tem fundamentação em estudos acadêmicos e modelos de engajamento, desenvolvimento humano, perfis psicológicos, estratégia de valor compartilhado e cultura organizacional. A proposta é democratizar a evolução de consciência de indivíduos, organizações e sociedade, colocando a ciência e a tecnologia a serviço da nova economia.

Norteadores da pesquisa Empresas Humanizadas Brasil, os Ratings de Consciência são uma acreditação que a Humanizadas confere às organizações; revisados e atualizados anualmente, eles demonstram a coerência entre o discurso e a prática, refletem a percepção de múltiplos stakeholders sobre a qualidade de gestão e das relações que uma organização nutre com os diferentes grupos interessados no sucesso da empresa – lideranças, colaboradores, clientes, parceiros e sociedade.  Os ratings contam com 11 níveis (AAA, AA, A, BBB, BB, B, CCC, CC, C, D e E), sendo o primeiro (AAA) o mais desenvolvido e o último (E), o menos desenvolvido. A classificação dos Ratings de Consciência foi inspirada em renomadas agências de crédito como S&P, Moody’s e Fitch, entretanto, em vez de avaliar o risco do crédito para um país ou uma organização (Ratings de Crédito), os Ratings de Consciência Humanizadas analisam o potencial de um país ou uma organização em gerar valor de maneira consistente para todos os stakeholders. O somatório das percepções dos stakeholders permite, também, avaliar como o macroambiente de negócios é favorável e coerente para o florescimento de negócios de impacto.

“Precisamos fortalecer um movimento global em prol de mudanças profundas. Somente com lideranças mais conscientes, poderemos viver em um mundo no qual a prosperidade é um imperativo; as organizações são éticas e transparentes, as pessoas são felizes, os clientes ficam encantados com a experiência que recebem, os problemas sociais e ambientais são resolvidos, e os negócios crescem exponencialmente à medida que resolvem esses problemas”, defende Pedro Paro, CEO e fundador da Humanizadas e pesquisador de doutorado do Grupo de Gestão de Mudanças da Universidade de São Paulo. O pesquisador desenvolveu a metodologia da pesquisa Empresas Humanizadas Brasil sob mentoria do professor Raj Sisodia (Babson College) e orientação do professor Mateus Gerolamo (EESC/USP).

| PRINCIPAIS INSIGHTS DA PESQUISA NO BRASIL

  • A pesquisa Empresas Humanizadas Brasil – que ouviu 36.868 pessoas no país – é o maior estudo já conduzido sob uma perspectiva multi-stakeholders considerando estágios de maturidade baseados em Ratings de Consciência. Participaram 226 instituições do país, desde microempresas (menos de 19 colaboradores) até grandes organizações (mais de mil colaboradores). O mapeamento tem por suporte múltiplas perspectivas, ou seja, conta com a percepção de investidores, conselho, lideranças, colaboradores, clientes, fornecedores, parceiros de negócios e sociedade em geral. Ao olhar para os problemas da sociedade nacional, as organizações podem encontrar grandes oportunidades de desenvolvimento. Na essência, quanto mais uma empresa resolve os problemas sociais e ambientais, mais ela pode crescer exponencialmente.
  • De acordo com a ONG Transparency International, o Brasil permanece estagnado no indicador de corrupção mais importante do mundo, ocupando apenas a 94ª posição no ranking de transparência. Um estudo da FIESP estima que o custo médio anual da corrupção no Brasil está entre 1,38% a 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) total do país. Mesmo diante da corrupção, da falta de transparência e confiança, dos problemas ambientais, da desigualdade social e de um ambiente não favorável ao florescer dos negócios, a Empresas Humanizadas Brasil – pesquisa desenvolvida pela Humanizadas, uma spin-off do Grupo de Gestão de Mudanças das Universidade de São Paulo (EESC/USP)  comprova que as organizações podem sim ter uma atuação mais ética, consciente e sustentável, e, ao mesmo tempo, ter um desempenho financeiro superior na B3 e ISE B3. Isso porque, as organizações/empresas que operam sob práticas de gestão e liderança modernas, alinhadas com os conceitos do século XXI, tendem a encontrar novas oportunidades de negócio, conquistar a confiança e a admiração dos diferentes públicos, e, com isso, possuir performance e resultados superiores à média das organizações no país, dentro de seu respectivo porte.
  • Na prática, analisando todas as empresas listadas na bolsa de valores do país (B3), durante o período de dezembro de 1998 até dezembro de 2020, a pesquisa identificou que as Empresas Humanizadas Brasil – que operam sob um nível de maturidade de liderança e gestão mais evoluído – tendem a ter performances superiores à média da carteira da B3 (5,5 vezes superior) e ao ISE B3 – Índice de Sustentabilidade Empresarial – (1,5 vez superior).
  • “Nós já sabemos que Ratings de Consciência superiores significam maior valor gerado para os diferentes stakeholders de uma empresa. Mas, será que eles também representam melhor performance financeira? Para responder a essa pergunta, fizemos uma análise comparativa das grandes empresas com os melhores ratings na pesquisa versus toda a carteira da bolsa de valores (B3) e o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE B3). Olhamos a rentabilidade financeira, por meio do indicador de ROE, durante o período de dezembro de 1988 até dezembro de 2020. Em todos esses períodos, mesmo passando por crises políticas, econômicas, sociais e ambientais, até mesmo enfrentando uma pandemia, podemos notar que empresas humanizadas tendem a ter melhor performance financeira, no caso, 5,5 vezes superior à carteira da B3, e 1,5 vez superior à carteira do ISE B3”, afirma Paro, responsável pelo estudo.

Fonte: Humanizadas (2021), período de análise de dez/1988 até dez/2020.

Dez|1988 a Dez|2020PERFORMANCE FINANCEIRA (% acumulada)Diferença
Humanizadas (Hu)674%
HU 5,5 vezessuperior à carteira B3,
e 1,5 vez superior
à carteira do ISE B3
ISE B3440%
B3122%
Fonte: Humanizadas (2021), período de análise de dez/1988 até dez/2020.
  • O que essas empresas fazem de diferente? Segundo Pedro Paro, CEO da Humanizadas e coordenador da pesquisa Empresas Humanizadas Brasil, na perspectiva macro, essas empresas possuem dois grandes diferenciais: têm maturidade de gestão elevada e melhor índice de qualidade das relações (geram valor compartilhado para todos os stakeholders). “Na perspectiva micro, se destacam em princípios fundamentais como propósito maior, estratégia de valor compartilhado, cultura consciente, adaptabilidade evolutiva e liderança consciente”, afirma o pesquisador, acrescentando que essas empresas são lideradas e gerenciadas sob um novo paradigma baseado em crença de abundância, pensamento ecocêntrico, olhar de longo prazo, valor compartilhado e relações ganha-ganha. Na visão de Paro, trata-se de um contraponto ao paradigma do século XX, baseado em crença de escassez, pensamento egocêntrico, olhar de curto prazo, valor para o acionista e relações ganha-perde.
  • Por que isso é importante sob o ponto de vista dos investidores? Segundo Paro, atualmente os investidores tentem a enxergar como um risco as organizações que não estão preparadas para atender requisitos de ESG ou atender os novos hábitos de consumo e trabalho. “Se olharmos os casos frustrados de IPO’s no passado recente, iremos notar que as empresas com fragilidades em governança, questões ambientais, sociais, ou até mesmo na infraestrutura para atendimento de mercados digitais, não foram bem aceitas pelo mercado. Em contrapartida, as organizações que estão preparadas para responder aos desafios socioambientais, possuem sólidas estruturas de governança e, além disso, conseguem operar de maneira eficiente no mercado digital, atendendo às mudanças dos hábitos de consumo e trabalho, passam a revelar grandes oportunidades sob a lente dos investidores, justamente por terem um risco menor no médio e longo prazo”, afirma.
  • Entre as empresas que são destaque na pesquisa, alguns exemplos emblemáticos são: Clear Sale (A), Natura (BBB), Magazine Luiza (BBB), Prezunic (BBB), Grupo Malwee (BB), Reserva (BB), Klabin (BB), Adimax (BB), Casas André Luiz (BB), Localiza (BB), Patrus (BB) e Unimed Vitória (BB).
  • No Brasil, não houve empresas com os índices AAA e AA (maturidade de gestão mais elevada, relações extremamente positivas e alta percepção de valor gerado para lideranças, colaboradores, clientes, parceiros, sociedade e planeta), fato que reforça o quanto ainda podemos evoluir como lideranças, organizações, macroambiente de negócios e sociedade. Nos índices A e BBB (maturidade de gestão alta, relações positivas e alta percepção de valor gerado para lideranças, colaboradores, clientes, parceiros e sociedade), 12 e 52 empresas, respectivamente, atingiram a marca; BB e B (maturidade de gestão acima da média nacional, relações saudáveis e ótima percepção de valor gerado para lideranças, colaboradores, clientes, parceiros e sociedade em geral), respectivamente, 86 e 54 empresas; CCC e CC (maturidade de gestão na média nacional, relações com problemas pontuais afetando a percepção de valor gerado para lideranças, colaboradores, clientes, parceiros e sociedade), respectivamente, 14 e 6 empresas.
  • Cada organização pode participar da pesquisa gratuitamente para avaliar o Rating de Consciência e adquirir relatórios mais detalhados, de acordo com o nível de informação que necessita para a própria evolução. “Cabe às organizações decidirem se querem ou não tornar seus ratings públicos. Temos dois compromissos na pesquisa Empresas Humanizadas Brasil. Primeiro, queremos divulgar os bons exemplos para o futuro dos negócios no país e, por esse motivo, desenvolvemos a metodologia de Ratings de Consciência; cada organização decide se irá ou não divulgar seu rating. Nosso segundo compromisso é com a jornada evolutiva de cada organização. Se não estiver bem avaliada, ela pode simplesmente não divulgar seu rating e solicitar informações mais detalhadas, inclusive com análises de benchmark para que ela possa identificar pontos de ação para que continue evoluindo e trilhando uma jornada de sucesso. No fim, o que queremos é que as organizações de Classe C se tornem B, e as organizações de Classe B se tornem A. Na verdade, o planeta e a humanidade pedem essas mudanças”, afirma Paro.

| COMPARATIVO: RESULTADOS DA PESQUISA NO BRASIL E NOS ESTADOS UNIDOS

Este estudo foi conduzido pela primeira vez nos Estados Unidos, por meio de um trabalho do professor Raj Sisodia, da Babson College e cofundador do Movimento Capitalismo Consciente. “Nos Estados Unidos, o professor Sisodia identificou um seleto grupo de organizações que possuem maior admiração dos seus diferentes públicos, exemplos de empresas como Whole Foods Market, Patagonia, Amazon, Starbucks, Zappos e Disney. Lá, essas empresas tendem a ter uma rentabilidade 14 vezes superior à média da S&P 500, sendo os princípios fundamentais da pesquisa Empresas Humanizadas o principal diferencial da pesquisa”, afirma Paro. O Brasil foi o primeiro país, depois dos Estados Unidos, a aplicar esse estudo, com a evolução do trabalho com o Grupo de Gestão de Mudanças da Universidade de São Paulo (EESC/USP). Em parceria com o Instituto Capitalismo Consciente Brasil (ICCB), o trabalho de pesquisa da Humanizadas se desenvolveu com a metodologia do professor Sisodia, trazendo, pela primeira vez no mundo, uma perspectiva evolutiva.

“Podemos afirmar que este é não apenas o maior estudo multi-stakeholders já realizado no mundo como, também, o primeiro dessa proporção, consultando 36.868 diferentes públicos, sejam as lideranças, os colaboradores, clientes, parceiros, investidores ou a sociedade em geral, para avaliar o grau de maturidade de gestão e a qualidade das relações de uma organização. É, também, a primeira vez no mundo em que as organizações estão recebendo Ratings de Consciência, o que sem dúvida alguma trará uma série de benefícios para as empresas, impactos sistêmicos e também vários aprendizados do ponto de vista científico”, afirma Paro.

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