Uirapuru Orquestra de Barro e Escola das Artes de Moita Redonda realizam ações formativas em Cascavel (CE)

A arte é o vetor de transformação social na Escola das Artes de Moita Redonda, em Cascavel (CE). A instituição desenvolve trabalho de formação artística com aulas de cerâmica (Tércio Araripe), fotografia (Fausta Lourenço), música (Jorge Santa Rosa), através do grupo Uirapuru – Orquestra de Barro, costura (Itaci Batista) e teatro (Natália Coehl) no povoado rural de Moita Redonda. O projeto, que este ano foi contemplado pelo XII Edital Mecenas do Ceará, será realizado durante seis meses e envolve crianças, jovens e senhoras da comunidade que tem cerca de mil habitantes.

Com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, da Prefeitura de Cascavel, e da Enel, este trabalho dá continuidade às atividades gratuitas realizadas pelo Instituto na busca da preservação e valorização do
patrimônio material e imaterial da região. As aulas, que estão sendo realizadas em locais abertos, seguem todos os protocolos de segurança, como a obrigatoriedade douso de máscaras, álcool em gel e a aferição da temperatura.

De acordo com o luthier Tércio Araripe, o principal objetivo é envolver as novas gerações na tradicional produção da cerâmica, herdada dos povos indígenas originários, possibilitando novas perspectivas profissionais. “Entendemos a importância de solidificar as bases construídas no intuito de resgatar a cidadania e autoestima da juventude, e oferecer, ainda, uma sustentabilidade para essa comunidade ancestral através da arte e do patrimônio. Dar continuidade ao projeto é continuar na luta pela redução das desigualdades e reafirmar o quão necessário é preservar as tradições”, afirma.

Os recursos do Edital irão custear os salários dos professores, monitores, além da conservação da estrutura física do espaço. No encerramento do projeto, será realizado um evento que consistirá na apresentação do espetáculo cênico-musical, além da exposição de obras resultante das aulas ministradas.

Além de fortalecer o setor cultural e a diversidade de expressões artísticas, a Escola de Artes fomenta ainda a geração de emprego e renda de Moita Redonda, envolvendo direta e indiretamente todos os habitantes. Atualmente, a produção local é feita por cerca de 60 famílias que têm no barro sua principal fonte de renda.

Com ações que vão desde formação musical e construção dos instrumentos até grandes eventos que envolvem toda a comunidade, como as apresentações da orquestra e a exposição e venda da cerâmica produzida, o projeto, de mais de uma década de existência, figura como uma das principais iniciativas de inclusão e de preservação do patrimônio no Estado do Ceará.

Lugar de tradição

A sede do Instituto 3 ARTE fica em um sítio de 1 hectare, dentro do povoado, com um amplo espaço livre e arborizado, onde acontecem diversas atividades como as aulas, vivências, apresentações, exposições e outras atividades. No local, ainda existem algumas construções antigas, como uma casa de 1928, feita com tijolos e telhas artesanais com portais e janelas com vista para a Serra da Mataquiri, espaço sagrado para os índios que habitavam a região. Tem também uma casa de taipa, como eram feitas as moradias no povoado anos atrás. E é justamente nessa casa onde acontecem os ensaios da orquestra. Há ainda outra construção, onde funciona a residência artística, pois uma das propostas do Instituto é trazer pessoas que possam dialogar e trocar experiências com as pessoas da comunidade.

Na escola, são ministrados cursos de música, artes cênicas, artes visuais, assim como minicursos e oficinas de outras linguagens. Também conta com exercícios e atividades que priorizam o desenvolvimento humano, artístico e social. A parte musical se utiliza de instrumentos confeccionados em barro, produzidos pelo luthier Tércio Araripe em conjunto com as “senhoras do barro”. O protagonismo feminino no povoado vai além das funções de chefe de família de cuidar do lar e dos filhos. Em Moita Redonda, as mulheres se destacam por serem as detentoras do conhecimento e da tradição, passadas de geração em geração, como a confecção da cerâmica por meio de técnicas ancestrais, influenciadas principalmente pelas culturas indígena, africana e europeia.

A orquestra resultante da escola é composta por diversos instrumentos, todos feitos de barro, como harpa, violino, cello, guitarra, tambores de tamanhos e timbres variados, flautas, apitos, trombetas e outros. Esses instrumentos são tocados pelos jovens do povoado, filhos e netos das “senhoras do barro”, detentoras do saber ancestral da queima do barro.

“São elas a figura principal no processo de criação da cerâmica produzida no povoado que é um dos principais pólos da produção de cerâmica artesanal do Ceará. Desta maneira buscamos transformar em definitivo o projeto Escola de Artes Moita Redonda em uma ferramenta de resgate das tradições, de inclusão sociocultural, da valoração cultural e de geração de renda”, conclui Tércio Araripe.

Diante das dificuldades na manutenção da cultura da produção dos objetos de cerâmica, o luthier Tércio Araripe conta que percebeu a necessidade de formar um alicerce para inserir os jovens dentro daquele ofício herdado pelos antepassados. Foi então que iniciou, em 2009, as oficinas de confecção de instrumentos musicais feitos de barro, realizadas na Moita Redonda. O que, posteriormente, transformou-se no Grupo Uirapuru – Orquestra de Barro com a inserção dos jovens no manuseio dos instrumentos fabricados por eles mesmos.

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