Como cuidar da saúde emocional e mental dos executivos na pandemia?

Artigo de de Wal Ruiz, jornalista especializada em comunicação organizacional:

Conversando recentemente com algumas lideranças, percebi que a maioria dos executivos sofre da síndrome da agenda lotada, um dos principais dilemas do mundo corporativo. Isso acontece porque os gestores estão sobrecarregados de tarefas e reuniões ao longo do dia, o que faz com que eles tenham cada vez mais dificuldade em resolver o que de fato importa na rotina de trabalho.

Para agravar ainda mais esse cenário, tivemos que aprender a lidar com os impactos causados pelo novo coronavírus. O estudo “One Year of Covid-19”, realizado pela Ipsos para o Fórum Econômico Mundial, com 30 países, apontou que 53% das pessoas entrevistadas no Brasil acreditam que sua saúde mental mudou para pior desde o início da pandemia de Covid-19. Os resultados da pesquisa colocam o país em quinto lugar no ranking das nações que mais têm sentido as consequências da pandemia em seu bem-estar emocional.

Essa realidade é extremamente preocupante e demanda um olhar mais atento, principalmente, para a saúde mental e emocional dos executivos, que são profissionais treinados para trabalhar sob pressão. Dentro do contexto corporativo, é importante destacar que estamos falando de um ambiente predominantemente masculino e, por isso, alguns estereótipos atrelados aos homens ficam ainda mais em evidência, como a falta de espaço para mostrar sinais de fraqueza.

Se você olhar para o sistema organizacional ou familiar, é possível identificar a figura do pai e a figura da mãe. A primeira representa carreira e força, e a segunda, prosperidade e dinheiro. Tais aspectos podem andar juntos ou não, mas essa é uma linguagem subliminar mental e emocional que os executivos ainda não se permitem, porque acreditam que dessa forma vão demonstrar sua vulnerabilidade. Ou melhor: sua qualidade de ser humano.

A importância do desenvolvimento humano

John Naisbitt, escritor e especialista em previsão de tendências globais, alerta que a tecnologia não será responsável por trazer os avanços mais emocionantes deste século, mas sim a expansão do que significa ser humano. Portanto, se preparar para esse novo cenário é fundamental, porque são as habilidades essencialmente humanas que vão fazer a diferença e criar valor para as organizações.

Isso quer dizer que antes de ser um executivo, você é um ser humano, com necessidades físicas, mentais e emocionais. Por isso, é preciso parar, se reorganizar, revisitar valores e, principalmente, se permitir. Caso contrário, não há como aguentar por muito tempo o que a pandemia impôs ao longo do último ano.

Um executivo com a saúde mental em dia, além de conseguir estender sua vida corporativa, é capaz de encontrar prazer e felicidade no dia a dia e de manter relações sociais saudáveis. O desafio agora não é apenas ter que lidar com o trabalho a distância, mas encontrar os recursos necessários para se adequar às mudanças causadas pela pandemia e equilibrar a vida pessoal e profissional.

O primeiro exercício a ser feito é olhar para a trajetória de sua carreira, analisar tudo o que teve que abrir mão para chegar aonde está agora e, em seguida, ponderar se valeu a pena ou não. É preciso parar para pensar como quer chegar na longevidade e entender que o mundo corporativo não é como antigamente, e que ainda é possível se reorganizar enquanto executivo.

O segundo exercício é analisar a própria liderança. Essa etapa é muito importante porque uma pessoa que está bem física, mental e emocionalmente comanda uma equipe de forma muito mais saudável. Assim, o time produz melhor e o resultado vem facilmente. Para resolver os problemas de trabalho de um jeito mais leve, é necessário esvaziar seu dial mental. Os que ainda não despertaram para esse novo mindset precisam se libertar da culpa. Você pode e deve começar a dar os primeiros passos.

O apoio das empresas na promoção da saúde mental

Em paralelo, as empresas começaram a observar que processos e resultados vêm de pessoas, que por sua vez são seres humanos distintos uns dos outros e precisam de estímulos diferentes, sejam eles visuais, auditivos ou sensitivos. Por isso, o debate sobre saúde mental está cada vez mais em pauta no ambiente corporativo. As companhias compreenderam que é preciso se comprometer com a construção de uma cultura organizacional voltada para o desenvolvimento humano e a promoção de saúde psíquica no contexto do trabalho.

O executivo também precisa entender que a empresa não vai parar ou falir se ele der algumas pausas durante o dia. Na verdade, o primeiro a ser prejudicado com a falta de equilíbrio entre vida pessoal e profissional é ele mesmo, que perde tempo de vida ao não olhar para si como um ser humano que tem necessidades. Isso aumenta o estresse, a irritabilidade, o cansaço e a inércia.

O segundo ponto a ser destacado é que o executivo também perde a convivência familiar de qualidade. Essa realidade torna o trabalho maçante, reduz a produtividade e interfere automaticamente nos resultados da empresa.

Neste momento, percebo que alguns líderes estão adotando um olhar diferente em relação a essas questões. Isso oxigena o cérebro e traz criatividade. O nosso corpo é uma máquina que precisa ser calibrada, e a manutenção deve ser feita no dia a dia. Ou seja, para você chegar à maturidade e conseguir passar por ela, só vale a pena se for de mente, corpo e alma sãos.

Por fim, compartilho uma frase que costumo falar com frequência para o meu filho: eu me coloco em primeiro lugar. Tudo o que faço é para mim e, se eu não estiver bem, todo o resto vai colapsar. Isso quer dizer que é possível equilibrar vida pessoal e profissional, mas exige uma mudança grande de mentalidade e rotina.

Está mais do que na hora de os líderes liberarem espaço em suas agendas para o que realmente importa. Afinal de contas, toda mudança começa por você. Por isso, pare e preste atenção no ser humano em que se transformou e perceba se ele é realmente o que você gostaria de ser. Sempre há tempo para desenvolver novas habilidades e mudar de vida. Permita-se!

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