Fintech acelera universalização dos investimentos em arte

Arthur Farache (esq) e Augusto Salgado (dir) ao lado da obra de Palatnik (crédito foto: Natan Oller)

Historicamente restrito a uma pequena elite financeira e cultural, essa modalidade de investimento fornece ganhos obtidos por meio de aquisição e venda de obras de arte. A modalidade passa a ser acessível ao investidor comum devido ao desenvolvimento de uma nova tese de investimentos criada pela Hurst Capital, maior plataforma de ativos alternativos da América Latina.

A fintech acaba de anunciar que tokenizou um acervo composto por três obras do Abraham Palatnik, considerado um dos maiores artistas plásticos brasileiros e pioneiro da arte cinética no mundo. O investimento, que estará disponível ainda no mês de junho na plataforma da Hurst, possui prazo esperado de 18 a 36 meses e rentabilidade média projetada de 17% ao ano.

Os interessados podem investir um aporte mínimo de R$ 10 mil para se tornarem coproprietários do acervo por meio de tokens padrão ERC1155, registrado no blockchain do Ethereum. A operação é de cerca de R$ 650 mil e representa um marco na história do mercado de arte no Brasil, já que possibilita a popularização dessa modalidade, antes inacessível ao investidor comum por conta do alto custo ou falta de expertise.

Filho de judeus russos, Abraham Palatnik nasceu em 1928 na cidade de Natal-RN, e mudou-se com a família para Tel-Aviv aos 4 anos de idade, onde iniciou sua formação técnica em física e mecânica, mas fez também aulas de pintura, desenho e estética no Instituto Municipal de Arte de Tel-Aviv. Aos 20, retorna ao Brasil indo morar no Rio de Janeiro.

O artista falecido no ano passado, aos 92 anos, no Rio de Janeiro, vítima de Covid-19, tem seu trabalho com fontes luminosas como pioneiro. Palatnik participou de mais de uma centena de exposições no Brasil e exterior, entre elas algumas Bienais de São Paulo. Suas obras estão nas coleções de museus como o de Arte Moderna de Nova York (MoMA) e o de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Considerado um dos mais importantes artistas da América Latina por seus arranjos de formas geométricas visualmente impressionantes, ele abriu um novo campo para a produção brasileira com seus Aparelhos Cinecromáticos e Objetos Cinéticos, obras em que o movimento mecânico e o apuro estético se somam na composição de formas abstratas. Sua trajetória contou com mais de uma centena de exposições individuais e coletivas, participações em salões e bienais no Brasil e exterior.

Segundo Arthur Farache, CEO da Hurst, a tese de investimento em obras de arte complementa o seu portfolio de ativos alternativos com uma relação de risco/retorno diferente dos outros ativos já oferecidos. Trata-se de um mercado de US$ 1,7 trilhão. que movimentou nos últimos 10 anos entre US$ 50 a 70 bilhões em vendas. No Brasil, esse setor movimenta anualmente algo em torno de R$ 1,3 bilhão. “Apesar do frenesi recente do mercado com NFTs e o processo de tokenização, o mais importante são os fundamentos do ativo subjacente. Essa operação é resultado de 8 meses de estudo e investigação de um time especializado criado para originar obras de artistas com o melhor potencial de valorização”, explica.

Para o desenvolvimento da tese, a Hurst contratou Augusto Salgado, engenheiro e investidor em obra de arte, cuja missão foi construir a tese, analisando 200 artistas brasileiros e criando um modelo matemático para precificação de obras de artes.

Palatinik foi escolhido por ser um artista já legitimado em instâncias internacionais da arte. Ele explica que a tese de investimento analisou ainda o histórico do artista que, nos últimos 15 anos, participou de centenas de leilões e tem obras bem valorizadas. Percebeu também uma tendência de escassez nas obras pelo fato de o artista ser falecido e obras terem sido destruídas em um incêndio acidental, o que resulta em redução da oferta de seus trabalhos e, consequentemente, na valorização deles. “Nossa avaliação é conservadora por se basear no desempenho passado, mas considerando todos os aspectos que envolvem a oferta, há espaço para sermos positivamente surpreendidos”, diz.

Outro aspecto positivo é a baixa correlação com o mercado financeiro. Estudo recente do Banco Citi aponta correlação de -0.03 com produtos de renda fixa e com o ambiente da Bolsa de Valores de apenas 0.25. “Trata-se de um ativo global, com demanda e cotação pareada em grandes centros como São Paulo, Londres e Nova Iorque. Isso reduz consideravelmente o risco”, comenta Salgado.

Vale destacar também que a tokenização do acervo tem como consequência a melhora na liquidez do investimento e a solução de um problema relevante do mercado de arte: autenticidade. “O investidor não precisa esperar o término do prazo da operação para vender seus ativos. Ele tem a opção de negociar, total ou parcialmente, por meio de tokens no Mercado de Ativos (Exchange) da própria Hurst, além de não se preocupar com autenticidade das obras, uma vez que foram adquiridas de galerias de primeira linha e seus certificados ficarão registrados no blockchain”, complementa Farache.

A operação funciona da seguinte forma: os investidores podem adquirir tokens que representam frações das obras, que ficarão expostas em galerias e, após um determinado período, estarão à venda. A Hurst não terá qualquer poder gestão sobre as obras, todas as decisões serão tomadas pelos donos dos tokens por meio de uma plataforma de votação, inclusive a aceitação de ofertas de compras por interessados.

Em todas as operações originadas pela Hurst Capital, as obras oferecidas serão representadas por NFTs, sigla em inglês que significa “Non-fungible Token” (Token não-fungível, em português), uma espécie de certificado digital registrado na rede blockchain e que define propriedade e autenticidade à obra. 

A tokenização da operação se dá pelo processo de fracionamento da carteira de NFTs (acervo de obras) em tokens criptografados e registrados no sistema blockchain da rede Ethereum. Esses tokens representam uma fração dessa carteira e que podem ser adquiridos pelo investidor a partir de R$ 10 mil reais. À medida em que as obras são vendidas no mundo físico, o investidor recebe em dinheiro a distribuição das vendas.

A Hurst não revela quais serão os próximos artistas que pretende tokenizar em novas operações. A ideia da empresa é originar, todos os meses, novas opções dentro dessa nova modalidade de investimento. 

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