O tempo e a política

Artigo de Arnaldo Santos, jornalista, sociólogo e doutor em Ciências Políticas:

O título do artigo que submeto à leitura crítica das senhoras e senhores, nesta semana, foi objeto de uma rica discussão da qual tive o privilégio de participar na última segunda feira, atendendo ao convite do professor doutor em Psicologia, Daniel Melo, diretor do Instituto Intentio – Núcleo de Estudos em Fenomenologia, Existencialismo, Psicologia, Literatura e Artes, que reúne professores e pesquisadores das diversas searas do conhecimento. O debate está disponível em (@intetiooficial).

A ideia central proposta para discussão pelo Instituto, com amparo no título da reflexão de hoje, situa em evidência o debate sobre a gestão e percepção da vida, por parte de cada pessoa, desde o seu macrocosmo de subjetividades. Nestas particularidades, estão assentes seus valores, ideologia política, crenças religiosas, interações sociais, bem assim as múltiplas emoções, como saudades e perdas provocadas pela pandemia, angústias e medos. Muita vez, estas produzem aguda sensação de desesperança, ao tempo em que é cada vez mais indissociável a relação que se há de manter na<br>condição de seres viventes, com o tempo e a política, experimentada na realidade caótica em curso.

Ante a tão complexa contextura, o que aqui se busca – além de ressaltar os distintos graus e modalidades de rebatimentos que essa sombria e desconstrutiva realidade produz, recorrentemente, na sociedade – é chamar atenção para o tamanho da responsabilidade de todos e de cada um, no sentido de se manterem vigilantes para não se deixarem sugar pelo obscurantismo que a todos espreita, inclusive com a morte, seja pela pandemia ou pela violência urbana, estimulada pelas armas e a pólvora das munições liberadas indiscriminadamente nesses tempos de uma tal “nova política”, praticada pelos donos do poder.

Em uma sociedade bombardeada por fake news e informações, em sua maioria, irrelevantes, ter objetividade e ser verdadeiro conferem poder e meios para se tentar mudar essa realidade, com suporte no grau de engajamento e do compromisso que se deve ter para com o estabelecimento de um novo amanhã, a fim de transportar esperança de superação dos problemas que afligem e angustiam a todos. Eis por que não se deve negligenciar o campo pessoal, apesar de, em maior ou menor grau, a pluralidade de pessoas estar enredada nas várias teias de uma sociedade em rede, limitando o tempo disponível para os movimentos de cada qual.

Na qualidade de pesquisador e jornalista, observador privilegiado desse tempo e da política – dos neoincensatos, terraplanistas – apesar de não reunir as condições de oferecer soluções para os problemas existenciais, não parece permitido livrar-me do dever de tentar constituir uma reflexão com a maior clareza argumentativa, que possibilite, de algum modo, apontar na direção de um horizonte de menos angústias e incertezas; ainda que seja sobre essa engenharia de negação e manipulação estabelecida, que os atuais donos do poder tentam impingir à Nação, pois, na teoria, todos devem participar do debate sobre um novo amanhã. O desafio será não perder a lucidez.

Nessa perspectiva, cada um tem espaço de atuação profissional, independentemente de formação intelectual, ideologia política e condições socioeconômicas, de sorte que se há de desenvolver as melhores energias para o aqui e agora, com foco na restauração e preservação da saúde física e emocional daqueles que sofreram perdas e danos, causados, de um lado, pela pandemia, e, de outra parte, por esse tempo de uma política de negação da ciência, de ameaças aos direitos e às liberdades individuais e coletivas, pelos sucessivos e flagrantes atentados à democracia.

Quando qualquer um examina os acontecimentos desse tempo e dessa política negacionista, necessariamente, o observador é remetido a alguns questionamentos. Quais são os desafios no curto e no médio prazos que se deve enfrentar hoje, ante a realidade vivenciada? Qual há de ser a estratégia para a superação da pobreza e das desigualdades, por exemplo, agravadas pela pandemia? Para onde se intenta dirigir? Que sociedade se pretende ser no futuro próximo? Para oferecer respostas, impõe-se fazer escolhas. Quais?

A mim não se afigura redundante exprimir a noção de que, em uma sociedade de desenvolvimento tardio e socialmente desigual como a brasileira, cuja maior pobreza ainda é a míngua do saber, os problemas, além de múltiplos e de natureza multifatorial, para cada estrato, reclamam igualmente soluções diversas, sejam de ordem político-econômica e social, de cunho ambiental ou de caráter urbano. É impossível se pensar, em um contexto geral, soluções para problemas individuais e singulares.

Para uma adolescente mãe solteira, que luta desesperadamente a fim de sustentar um ou dois filhos, no subúrbio de uma grande cidade brasileira, é natural que sua mais urgente preocupação seja a próxima refeição para alimentar os rebentos. Assim, também, ocorre com uma pessoa internada com o coronavírus, em um hospital superlotado (felizmente já não é assim), sem oxigênio, como aconteceu em Manaus, pois tudo de que precisava era ter oxigênio e força para respirar. Semelhantemente, sucede com uma família com três crianças, o pai e a mãe desempregados, morando embaixo de uma árvore, à margem de uma avenida, pois só um teto para os abrigar não resolve o problema, uma vez que faltam alimentação, escola para as crianças, o emprego para os pais etc.

Perante realidades tão diferentes, o historiador israelense Yuval Harari assim adverte: “[…] Todos têm problemas muito mais urgentes para resolver do que o aquecimento global ou a crise da democracia liberal, não sendo possível dar conta de todas as angústias individuais, nem ensinar lições às pessoas nas situações descritas; mas é possível aprender com elas”.

Que tal se aprender com as lições de vida transmitidas pelas atletas medalhistas olímpicas brasileiras, Rayssa Leal, no skate, e Rebeca Andrade, na ginástica?

Comentários e críticas para: arnaldosantos13@live.com.

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