Os dragões da maldade estão de volta: desemprego, fome e miséria

Cada brasileiro e brasileira devem estar pensando o que há de errado com a retomada da economia. Enquanto o governo tenta vender seu otimismo, com bons dados de vendas de imóveis, avanço no agronegócio, na mineração, IPOs (sigla em inglês para oferta pública inicial) e valorizações na bolsa, o País volta a conviver com inflação, desemprego, fome e aumento da miséria. Todas as reformas passadas (previdenciária e trabalhista) e as atuais (tributária, administrativa e nova trabalhista) foram e estão sendo “vendidas” como salvação da economia e a redenção do emprego. Os dados parecem mostrar exatamente o contrário.

O IBGE divulgou os resultados da PNADC para junho, fechando o primeiro semestre de 2021. A taxa de desemprego ficou em 14,1% em junho, contra 14,6% no mês anterior. O desemprego mantém-se acima dos 14% desde julho de 2020. O desemprego alto e a renda baixa nos últimos cinco anos abalam as famílias e a economia, e não há no horizonte próximo sinais de recuperação nem para a situação pré-pandemia, que já era grave, muito menos para o período anterior a 2015, quando o desemprego não alcançava os dois dígitos (fechou o ano em 8,9%).

Fonte: IBGE, 2021. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/9173-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-trimestral.html?=&t=series-historicas&utm_source=landing&utm_medium=explica&utm_campaign=desemprego. Acesso em 31 de agosto de 2021.

Em se tratando das grandes regiões, somente o Sul (8,2%) e o Centro-Oeste (11,6%) ficam abaixo da média nacional, Norte (14,0%) está na média, enquanto Sudeste (14,5%) e Nordeste (18,2%) estão acima da média, principalmente a região Nordeste, a mais afetada. É importante lembrar de que, em dezembro de 2014, a taxa de desemprego estava em 6,5%, o que no momento era utilizada como uma situação escandalosa a ponto de “justificar” o impeachment da presidenta Dilma Rousseff pelo “conjunto da obra” e não exatamente pelas supostas “pedaladas fiscais”.

Ao longo dos últimos anos as famílias veem sua renda reduzir, cenário que está sendo agravado pela inflação que deve chegar a 8% até o fim do ano, segundo as estimativas do mercado. O custo dos alimentos, do gás e da energia corroem o poder de compra dos salários, prejudicando ainda mais a situação das famílias, especialmente as mais pobres. A massa de rendimento em junho foi 6% menor em termos reais do que no mesmo mês de 2019, quando a taxa de desemprego estava em 12%.

O resultado é um aumento da pobreza generalizado em todo o País. O Distrito Federal, onde está localizado o governo federal é a região em que mais subiu a pobreza, 61%, seguido do estado do Rio de Janeiro. A população de rua aumenta, a violência avança e o governo inerte distrai a população sem esperança falando em rifles e ameaças à democracia. É necessário e urgente termos um projeto de desenvolvimento inclusivo para este país sem rumo.

Este cenário fica ainda mais dramático com a situação da fome e da miséria retornando ao Brasil. No início do ano, a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (PENSSAN) divulgou o relatório do “Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil”.[1] Os resultados da pesquisa revelaram a gravidade da miséria e indicaram que o Brasil tinha infelizmente retornado ao Mapa da Fome: “Do total de 211,7 milhões de pessoas, 116,8 milhões conviviam com
algum grau de IA (leve, moderada ou grave). Destes, 43,4 milhões não contavam com
alimentos em quantidade suficiente para atender suas necessidades (IA moderada ou
grave). Tiveram que conviver e enfrentar a fome, 19 milhões de brasileiros(as).”[2]

Fonte: Rede PENSSAN, 2021.

Com metade do País convivendo com algum grau de insegurança alimentar e 9% passando fome, a situação ainda é pior na área rural, onde 12% dos domicílios enfrentavam a insegurança alimentar grave, ou dito de forma direta, passavam fome. Se somarmos os 14,9% de domicílios com insegurança alimentar moderada, na área rural chegamos a 26,9% dos domicílios assolados pela carestia, um número 32% maior do que aquele observado na área urbana.

A nova pesquisa divulgada pela “Food for Justice” e coordenada pela FREIE UNIVERSITÄT BERLIN, em parceria com a UnB e UFMG, apontou uma situação similar, corroborando para consistência dos dados apresentados nas duas pesquisas e trouxe novos elementos para orientar as ações e políticas com o objetivo de retirar novamente o Brasil do Mapa da Fome e da miséria.[3] Os dados para o Brasil indicaram que 12,7% dos domicílios conviviam com insegurança alimentar moderada, e 15% com insegurança grave, com seus moradores(as) passando fome. Mais uma vez, a situação na área rural se mostrou mais grave do que na área urbana, com 19,9% dos domicílios com insegurança alimentar moderada e 27,3% com os(as) moradores(as) passando fome. A pesquisa revela também que a fome é mais severa entre os(as) negros(as) e pardos(as), com quase o dobro dos domicílios em situação de vulnerabilidade alimentar.

Mas, tudo isto parece não despertar o interesse do governo e parte do Congresso Nacional. Mais do que isso, todos os mecanismos que foram conquistados pelo povo brasileiro para combater a fome, a miséria e gerar emprego e renda estão sendo sistematicamente atacados com medidas provisórias, projetos de lei e atos administrativos, como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e a Previdência Social. Somam-se a isso os problemas da terra e do território, da água e do licenciamento ambiental.

Enquanto os dragões da maldade voltam para assombrar o povo, o governo discute o ataque às demais instituições da República e ameaça a democracia, separação de pessoas com deficiência das demais nas escolas, voto impresso e aquisição de armas.

Democracia não combina com desemprego, fome e miséria. Todos esses problemas são resolvidos somente com políticas estruturantes e estratégicas para gerar emprego e renda, fortalecimento da agricultura familiar para ampliar a produção e alimentos saudáveis e sustentáveis, apoiar os setores produtivos e a garantia de direitos fundamentais como papel central do Estado, conforme preconizado no art. 6º da Constituição Federal.

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